intervenção sobre fotografia digital de Susana Paiva
#10 dançar com escadas para indisciplinar a relação coreográfica entre corpo e espaço
Proposta de programa performativo: Dois homens vestidos de forma cotidiana realizam essa ação em uma escada situada em espaço público. Durante toda a ação devem manter-se sempre de costas um para o outro, permitindo que o acaso sintonize seus movimentos e atraia os corpos para perto um do outro. Percorrer o espaço da escada em todas as direções e sentidos, explorando suas especificidades. Alternar e variar posições de início: cada um por uma extremidade, ambos pelo meio, ambos de baixo para cima, ambos de cima para baixo. Na escada, os dois executam aleatoriamente um repertório de gestos e movimentos elaborados em resposta à especificidade do espaço. Experimentar outras relações que não sejam a verticalidade: rolar, arrastar, engatinhar, deitar, sentar, etc. Explorar relações com partes do corpo que normalmente não tocam os degraus, ombros, antebraços, costas, palmas, cabeça, joelhos, etc. Reinventar o uso da escada durante cerca de uma hora.
Algumas notas a partir de Enciclopédia das Escadas de Bruno Humberto
Em Enciclopédia das Escadas — trabalho apresentado como resultado de uma residência artística de Bruno Humberto com colaboração de João Ferro Martins, Miguel Ângelo Santarém e Mariana Sá Marques no festival Citemor, ainda em início de processo — somos convidados a seguir por vielas de Montemor-o-Velho, vila portuguesa onde escadas brotam por todos os lados. Era tarde da noite quando iniciamos o percurso, e a vila, silenciosa e sem grandes movimentos, parecia já estar adormecida. Acomodados sempre no alto de escadarias – ponto de vista de onde se pode ter vários planos em perspectiva – observamos como luz, som, corpo, espaço, movimento e deslocamento tornam-se elementos de uma composição performática que flerta com o cinematográfico, onde realidade cotidiana se confunde com proposições artísticas intencionais.
As escadarias de espaços públicos, normalmente vistas como mero dispositivo funcional de trânsito — para passar, subir, descer —, em Enciclopédia das Escadas são tomadas como espaço de permanência, cena e coreografia. Ao percorrer diferentes escadarias em um percurso pelo alto da vila, os artistas exploram e compõem a partir de suas características físicas, formais e simbólicas, bem como dos usos e práticas cotidianas que habitam esse espaço.
Em um dos momentos que mais ficaram marcados para mim, dois homens dançam sobre um platô iluminado entre lances de escadas, explorando dinâmicas entre luz e sombra, aparição e desaparição. Seus corpos pareciam se atrair, mas evitavam o contato visual, sugerindo uma tensão entre atração e repulsa. Mas não performam virtuosismo, se concentram em uma dança composta por gestos mínimos - um vocabulário de movimentos que reconhecemos do cotidiano e que não chamariam atenção em si – andar em círculos, alterar velocidades e duração, sentar, deitar, apontar, colocar as mãos na cabeça, verificar os bolsos, apoiar-se o braço em um muro, pressionar o corpo contra a parede, espantar mosquitos sobre a cabeça, etc. Mas ao serem repetidos, fora de sua funcionalidade e contexto habitual, deixam de obedecer à ordem produtiva desse espaço público de passagem e reorganizam a performatividade corporal cotidiana. Como anotei: “a insistência em repetir esses gestos fora de contexto e de propósito promove uma mudança de perspectiva que nos faz ver o coregráfico e o poético escondido no cotidiano”.
Subir e descer escadas pode parecer um gesto meramente funcional, mas, como propõe Andrew Hewitt em Social Choreography (2005), nossos movimentos cotidianos carregam e reproduzem estruturas sociais, ideológicas e políticas. O autor chama isso de coreografia social, um modo de compreender como os corpos, ao se moverem, não apenas refletem a sociedade, mas a constroem performativamente. Não se trata de metáfora, mas de um campo de ação constitutivo — o corpo não apenas representa normas, ele as reitera e inscreve no espaço.
Ao tomar a escada — elemento arquitetônico tão presente em nossas vidas — como ponto de partida em fricção com o tempo e o espaço cotidianos, Enciclopédia das Escadas tensiona gestos e espaços aparentemente neutros, revelando sua carga simbólica e ideológica. À proposição de ações que se confundem com a vida, ativa o espaço como campo de tensão: entre função e poética, repetição e variação, expectativa e possibilidade. Escava também camadas de sentido — hierarquia, ascensão, acesso, separação, esforço — e toma o gesto cotidiano como matéria corográfica. Orientando seu interesse para o mundano, valorizando o ordinário, o comum e desafiando nossas expectativas em relação ao virtuosismo.
Nessa dinâmica, a escada deixa de ser simples suporte e se torna dispositivo de criação. Habitada por corpos que desaceleram, que não obedecem à verticalidade funcional de passagem, transforma-se em platô de permanência, terreno de invenção. Enciclopédia das Escadas, se encontra em fase inicial de processo, mas já aponta para um gesto que se revela como um potencial desarticulador do uso normativo da relação entre corpo, espaço, arquitetura e cidade.
Para mim, a ideia de enciclopédia evocada no título não remete a um saber total, mas a um conjunto de experiências encarnadas que lembram que dançar, caminhar, parar e olhar são modos de fazer – e também de desfazer e refazer – o mundo. Como uma enciclopédia viva, feita de experiências corporais, afetivas e relacionais, o trabalho evidencia que as relações entre corpo, espaço, arquitetura e cidade são atravessadas por tensões e conflitos.
Esse ato solicita uma reorientação de nossa relação corográfica funcional com o espaço arquitetônico, reorganizando a performatividade cotidiana e permitindo reparar no que normalmente passa despercebido. Mesmo em seu estágio inicial, o trabalho aponta para esse potencial gesto contra-coregráfico — tensionando e evidenciando a coreografia social e abrindo espaço a outros modos de estar e mover-se com a cidade.
09/08/2025
Texto: Letícia Maia
Foto: Susana Paiva, com intervenção de Letícia Maia