#5 Concerto molhado para peixes brilhantes, La excitação del paisaje – río, de Óscar Bueno por Letícia
La excitación del paisaje – río, do artista espanhol Óscar Bueno, é um trabalho performático site-specific composto por três peças que acompanham os ritmos do dia — manhã, tarde e noite. Desenvolvido em relação direta com cada território onde é apresentado — neste caso, o rio Mondego e seus arredores, na cidade de Montemor-o-Velho, Portugal —, o projeto propõe um mergulho em camadas sensoriais da paisagem, posicionando o rio como presença coautora da experiência.
Por meio da música, movimento e criação de imagens, o artista não busca representar o ambiente, mas provocar aquilo que desloca nossa forma de habitá-lo. Nesse contexto, o corpo torna-se superfície de escuta e afecção, ativando uma atenção expandida para o ambiente e suas relações.
“Trata-se de gerar um ligeiro distanciamento do familiar para abrir espaço para outras formas de ser”, afirma o artista. Um exercício de escuta que não se limita aos sentidos humanos, mas se abre à multiplicidade de espécies, presenças e forças que constituem a paisagem. Assim, alinha-se com aquilo que desestabiliza a lógica moderna da representação, dissolvendo hierarquias entre sujeito e objeto. O rio, aqui, não é pano de fundo, mas presença vibrátil, coabitante e ativa.
Errância e acaso parecem ser estratégias que orientam todo o processo de composição do trabalho, convertendo a criação artística em prática relacional entre corpo e ambiente. Este texto se constrói como um relato reflexivo imerso nesse percurso errante, permeado por observações subjetivas, para pensar o entrelaçamento entre corpo, paisagem, arte contemporânea e práticas que desafiam os modos hegemônicos de percepção e presença.
primeira peça
Embora prevista para acontecer de manhã, a peça se realizou à tarde — deslocamento temporal que já anuncia a lógica do trabalho: adaptar-se às condições que o contexto oferece. A indicação de localização diz que devemos seguir pela estrada de terra à beira do rio, atentos aos latidos de grandes cães que marcam o ponto de entrada.
Seguimos por esse caminho e chegamos a uma clareira no momento exato da travessia de um rebanho de ovelhas e bodes guiados por um pastor e seu cão, que passam por uma antiga ponte de madeira que compõe a paisagem. Esse momento — aparentemente fortuito — funciona como prólogo: o trabalho se articula com o que já pulsa no lugar, escutando seus ritmos e fenômenos como elementos vivos de composição.
Camuflagem é a ideia que orienta essa primeira parte. Pequenos gestos, movimento, som, imagem, materiais e objetos se inserem entre os elementos da paisagem como mais uma dobra, não como imposição. O rio se apresenta em planos sobrepostos, duplicações e reflexos enfatizados pelo uso de espelhos manipulados pelo artista.
Nesse momento me lembro da imagem de Mirror Piece, de Joan Jonas onde mulheres com espelhos sobre o corpo, refletindo a paisagem e o público ao redor, dissolvendo fronteiras entre corpo, ambiente e olhar, fragmentando e camuflando o visível, onde ver e ser visto se tornam indistintos. De forma semelhante, o corpo do artista, como espelho, torna-se superfície — reflexividade encarnada.
Joan Jonas, Mirror Piece I, 1969
segunda peça
Embora prevista para acontecer de manhã, a peça se realizou à tarde — deslocamento temporal que já anuncia a lógica do trabalho: adaptar-se às condições que o contexto oferece. A indicação de localização diz que devemos seguir pela estrada de terra à beira do rio, atentos aos latidos de grandes cães que marcam o ponto de entrada.
Seguimos por esse caminho e chegamos a uma clareira no momento exato da travessia de um rebanho de ovelhas e bodes guiados por um pastor e seu cão, que passam por uma antiga ponte de madeira que compõe a paisagem. Esse momento — aparentemente fortuito — funciona como prólogo: o trabalho se articula com o que já pulsa no lugar, escutando seus ritmos e fenômenos como elementos vivos de composição.
Camuflagem é a ideia que orienta essa primeira parte. Pequenos gestos, movimento, som, imagem, materiais e objetos se inserem entre os elementos da paisagem como mais uma dobra, não como imposição. O rio se apresenta em planos sobrepostos, duplicações e reflexos enfatizados pelo uso de espelhos manipulados pelo artista.
Nesse momento me lembro da imagem de Mirror Piece, de Joan Jonas onde mulheres com espelhos sobre o corpo, refletindo a paisagem e o público ao redor, dissolvendo fronteiras entre corpo, ambiente e olhar, fragmentando e camuflando o visível, onde ver e ser visto se tornam indistintos. De forma semelhante, o corpo do artista, como espelho, torna-se superfície — reflexividade encarnada.
Ao entardecer, seguimos em grupo ao longo da margem do rio. O uso de elementos analógicos e digitais — como óculos de papel com filtro azul, sobreposições sonoras em fones de ouvido — com pausas para observar coletivamente o espaço ativa novas formas de atenção. As ações do artista, por mínimas que sejam, confundem os limites entre o que é arte e o que é vida cotidiana.
Por meio dessas delicadas intervenções compositivas passamos a atentar para aquilo que o hábito e a vida urbana muitas vezes nos aliena: o canto dos pássaros, o movimento das águas, das árvores, a oscilação da luz, a composição da paisagem. Uma coreografia de coexistências.
Em determinado momento, um pequeno barco azul, guiado por um jovem, cruza o rio transportando um objeto disforme — prateado, espelhado. Pedra? Escultura? Meteoro? De onde vem? Para onde vai? O mistério se sustenta em sua opacidade. Disposição no lugar de imposição, gesto de deslocamento que ecoa todo o trabalho: mover para ativar, deslocar para rever.
No fim desse percurso, algo emerge da água sob a ponte onde nosso grupo está posicionado — um microfone no meio do rio, canto molhado e corpo performático que se oferece em gesto, voz e movimento.
O artista canta como uma sereia cuír e se move em profunda conexão e ressonância com o entorno. Suas canções narram e evocam a força do rio, sua ancestralidade, a grandeza de conexão e coexistência. A aparição desse corpo, posicionado de modo “estranho/oblíquo” na paisagem, torce e desorienta nosso eixo perceptivo.
Seus movimentos compõe uma dança que agita sedimentos profundos e trazem à tona a presença vibrátil do que estava oculto.
terceira peça
Embora prevista para acontecer de manhã, a peça se realizou à tarde — deslocamento temporal que já anuncia a lógica do trabalho: adaptar-se às condições que o contexto oferece. A indicação de localização diz que devemos seguir pela estrada de terra à beira do rio, atentos aos latidos de grandes cães que marcam o ponto de entrada.
Seguimos por esse caminho e chegamos a uma clareira no momento exato da travessia de um rebanho de ovelhas e bodes guiados por um pastor e seu cão, que passam por uma antiga ponte de madeira que compõe a paisagem. Esse momento — aparentemente fortuito — funciona como prólogo: o trabalho se articula com o que já pulsa no lugar, escutando seus ritmos e fenômenos como elementos vivos de composição.
Camuflagem é a ideia que orienta essa primeira parte. Pequenos gestos, movimento, som, imagem, materiais e objetos se inserem entre os elementos da paisagem como mais uma dobra, não como imposição. O rio se apresenta em planos sobrepostos, duplicações e reflexos enfatizados pelo uso de espelhos manipulados pelo artista.
Nesse momento me lembro da imagem de Mirror Piece, de Joan Jonas onde mulheres com espelhos sobre o corpo, refletindo a paisagem e o público ao redor, dissolvendo fronteiras entre corpo, ambiente e olhar, fragmentando e camuflando o visível, onde ver e ser visto se tornam indistintos. De forma semelhante, o corpo do artista, como espelho, torna-se superfície — reflexividade encarnada.
Com a chegada da noite, a escuridão revela mais do que esconde. O corpo agora veste um indumento composto por óculos e um macacão que cobre todo o corpo, adornado por lantejoulas e detalhes cintilantes — algo entre um zentai aquático e uma criatura sci-fi. “Uma criatura metade monstro do pântano, metade sereia”, como diz o próprio artista.
Um corpo híbrido que habita o limiar entre profundidade e superfície, entre dentro e fora, entre luz e sombra, e nos convida a ver o escuro.
Somos guiados por luzes de lanternas que recortam o espaço e conduzem nossa visibilidade para um corpo que se move produzindo corporeidades outras. A paisagem se transforma em um campo de efeitos especiais analógicos: reflexos, luzes e movimento constroem duplicações, sombras, inversões, aparições e desaparecimentos, compondo com sons distorcidos, música experimental e canto.
A sereia cuír agora canta novamente. Canta com e para peixes brilhantes que irrompem a superfície da água, com e para os pássaros, cães, cigarras, rãs e morcegos, para o rio e para os que ali estão — ocultos ou visíveis. Um coral interespécies. Um concerto molhado.
Cantarola como quem cuida. Como quem reverbera. Como quem não se impõe, mas se oferece.
Ao longo do percurso, pensei repetidas vezes sobre a quebra da expectativa com a ideia de espetáculo, sobre não se deixar seduzir pelo virtuosismo atraente da música, da dança contemporânea e da performance como desempenho.
Nesse trabalho o interesse parece estar não na ação de um sujeito, mas no acontecimento — naquilo que emerge do entre, das relações, dos fenômenos e afetações com o ambiente, naquilo que é mais mundano.
Uma valorização da experiência corporal situada, da escuta atenta ao “espaço público natural coabitado”, onde o corpo está posicionado como canal e superfície de reverberação. Penso que contemplar é, sobretudo, um modo de estar — uma atitude ativa de escuta do campo sensível que permite que o mundo nos atravesse antes que possamos reagir a ele.
Se há dança, está no movimento na água com seus brilhos, redemoinhos e reverberações, na multiplicidade de sons e sensações, nas árvores, nos reflexos duplicados e invertidos na superfície do rio que viram o mundo ao avesso.
Participar do trabalho é partilhar um segredo comum, fazer grupo, partilhar tempo, deslocamento e pequenos espantos. Tudo move e é movido — como uma pedra jogada no meio do rio, ou um peixe brilhante que irrompe a superfície da água.
A dança está no giro perceptivo que partilhamos: rever o mesmo por outro ângulo.
Ao propor um mergulho nas camadas sensoriais da paisagem, tomando o rio, o ambiente e o contexto como presenças coautoras da experiência, La excitación del paisaje – río convoca o corpo a um exercício errante de escuta e atenção expandida.
Um estar-com que dissolve fronteiras dicotômicas entre arte e vida, sujeito e ambiente, dentro e fora, superfície e profundidade — em um gesto político de reorientação da percepção.
Diante do esgotamento de um mundo em ruína baseado no extrativismo, na dicotomia e no controle em nossa relação com aquilo que consideramos “natureza”, o trabalho de Óscar Bueno aponta para modos de estar mais implicados, mais porosos e atentos ao que vibra entre as coisas.
Como propõe Donna Haraway, não há natureza separada da cultura, apenas naturezasculturas — tramas de coimplicação entre humanos e mais-que-humanos.
La excitación del paisaje – río se oferece como convite a praticar a paisagem como espaço vivo, vibrante, atravessado por múltiplas perspectivas. Uma prática ética de estar-com que reconhece o mundo como campo de relações sensíveis, onde a alteridade e a co-dependência são elementos constitutivos da experiência de estar vivos.
Talvez a arte possa nos ajudar a praticar o sensível como espaço comum, posicionando-o como um território de reaprendizagem coletiva da percepção e da atenção. Aprender a re-parar como quem acaricia e é acariciado por um rio.
Cantarolar um concerto molhado para peixes brilhantes que irrompem a superfície espelhada da água. E depois retornar à margem com o corpo molhado e levemente desorientado — como quem, por um instante, vibrou em consonância com a força extraordinária que é a vida em sua multiplicidade.
31/07/2025
Texto: Letícia Maia
Fotos: Susana Paiva
Vídeo: Letícia Maia