#3 Sinais e sussurros para um realismo mágico praticado, efeitofeitiço em Hipersueño de Paz Rojo
por Letícia Maia
estou sentada de olhos fechados sob-sobre uma superfície em ruínas. lisíssima. higienizada. é assim que ela se parece. não a vejo, mas a sinto — como tudo que me cerca.
meu corpo vibra em resposta a toques que vêm do invisível. luz, som, outros corpos, olhares, presenças que tocam minha carne, e para as quais ainda não foram inventadas palavras.
situo-me entre o sono e a vigília, um estado de dormência que depois se converte em canal de vibração. devir. manifestação. passagem para germens de mundos em nascença.
mas agora, estou sentada sob-sobre a ruína lisa. uma luz azul-rosada — ou violeta — cobre parte do espaço até a zona do fundo escuro. tudo aqui ressoa: som, passos, gestos, respiração, batimentos, ruído. dentro-fora-espaço-tempo sem divisão de planos.
sinto a presença de outro corpo que agora me toca. meu coração acelera e toda a minha pele se arrepia. mas não reajo. permaneço nesse estado de latência, enquanto sou conduzida por profecias de mundos vindouros. entre mover, ser atraída e movida por forças invisíveis, indizíveis — abrimos espaço para um animismo sensorial em contato com desconhecido.
habitamos esses entretempos-espaços interpolados — antes, agora, depois, aqui, lá. percebo quão pequeña soy e me abro à relacionalidade radical que me chama. gesto radial. raios que partem de múltiplos centros estelares e se irradiam por meus órgãos. mírame, no estoy dormida. estoy en un estado de hipersueño entre espacios y tiempos. aunque estoy aquí, también estoy allá.
posicionadas em vórtices espaço-temporais, ouvimos sussurros que emergem do mistério. convocam-nos a ver o escuro que as luzes da modernidade-colonial-capitalista insistem em ofuscar. prática de evocação e invocação que posiciona o corpo como espaço poroso, canal para forças que se aproximam em forma de sinais e sussurros — um exercício de miração fabular que nos convida a coabitar mundos outros. abrindo nosso imaginário mágico-sensível.
em fragmentos descontínuos, nossos sonhos, desejos e delírios rondam e pousam sob-sobre as ruínas como moscas varejeiras cintilantes. anunciam o fim em decomposição e o começo germinado por larvas que brotam da matéria em ruína. enquanto buscamos beleza-borboletas ou o romantismo das abelhas polinizadoras, são as moscas — essas corporalidades sujas, mundanas, abjetas ao nosso olhar — que espalham seus ovos invisíveis. proliferam sobre, ao lado, sob nossos corpos. não as vemos — mas estão por toda parte em brotação.
estoy sob-sobre las ruinas y me muevo a través de diferentes planos. sí, sí, sí — transito entre dormência e condução. há reciprocidade em tudo que vibra. luz, escuro, som, movimento. os líquidos do meu corpo se movem em uma (des)sincronia viva, em ressonância com o enigma. turbulência no contato corpo-a-corpo. o toque súbito, intenso, entre intimidade e brutalidade, enuncia a presença de forças que nos mobilizam.
nosotras transitamos entre esses estados: dormência e vigília, sonho e hipersueño. conduzir e ser conduzida. movemo-nos entre planos espaço-temporais. encaixar, tocar, empurrar, alisar, apertar, bater, torcer, girar, arrastar, suspender, convocar — otros cuerpos en latencia. hay muchas como nosotras, las evocamos desde el misterio.
mis ojos se cierran una vez más. dejo me llevar por una extraña turbulencia que desorienta mis sentidos. nuestros cuerpos son una antena, un canal para fuerzas invisibles que insisten en manifestarse en una fenomenologia somatosensorial.
torpor cotidiano interrompido pelo contato com o outro, com o porvir, com o que já foi — desejo, delírio, alucinação. confabular portais. abrir campos para forças-guia. pernas bambas. aquelas que dançam se deslocam por tempos descontínuos, espaços limiares, antes e depois, entre fins e começos de mundos.
em outras camadas, nos movemos juntas por essa cosmogonia inventada entre escombro e brotação. sintonização. manifestação. proliferação. ecolalia. grito estrondoso que toca o intocável. enquanto o escuro nos engole, o som vibra e chacoalha as ruínas onde assentamos nossos corpos, ideias e fabulações.
meus olhos se abrem devagar. dançar o desconhecido. exercício de transição entre elos temporais fragmentados. pistas. indícios. canais. confluência entre o que foi, o que é e o que se imagina.
persistência da paisagem fabular. (des)aparecer. olhos. ossos. órgãos. carne. pele. matéria. entrelaçamento. interdependência. enredamento. evocação. captar a textura sensível-sensual de uma percepção mais que humana.
no hay lugar de origen al que regresar. ningún futuro delineado. con-fabulemos juntas. movámonos en el misterio, entre tiempos y espacios, muerte y vida, un estado umbral de presencia, ni principio ni fin, o mejor: principio y fin, punto de transición, cosmología liminal.
algo grita em nós. futurar. sonhar. imaginar alucinadamente. efeitofeitiço de contaminação. enredamento. enunciação. ouçamos as outras — as que virão do reencantamento. enigma de outros mundos, prontas a lamber o invisível. de nós: resíduo, vestígio, iminência. enlace entre sonho e despertar. ficção e realidade. sinais e sussurros para um realismo mágico praticado.
epílogo
Este texto parte de um exercício de escrita automática, realizado durante e após a apresentação. Os desenhos que o acompanham foram feitos no escuro, durante o espetáculo, em resposta direta aos efeitos performativos de desorientação que este produziu em meu corpo. O texto busca refletir, por meio de um fluxo de pensamento espiralado e descontínuo, uma cartografia sensível que foge da lógica cartesiana, abraçando a imprevisibilidade e a corporificação como exercício de pensamento crítico.
Hipersueño integra a série de investigações Morir Bien, da artista espanhola Paz Rojo, e conta com a participação de Arantxa Martínez e criação sonora de Luz Prado. O trabalho foi apresentado no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, no contexto do festival Citemor 2025.
25/07/2025
Texto e fotografias: Letícia Maia