#4 (((Essa carta-rio que se espalha como artista que empurra margens)))
por Ed Freitas
Texto Que Se Canta, ou para ser lido em voz alta
“...Sofri o grave frio dos medos, adoeci.
Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento?
Sou o que não foi, o que vai ficar calado.
Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo.
Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem…” -
João Guimarães Rosa [JGR], A Terceira Margem do Rio, 1962
(((Fiu, Fiu, Fiu, Fiu… Fiu, Fiu, Fiu………………………….Canta-Ó, Rio: Fiu, Fiu, Fiu…….)))
Uma resposta performativa à “La excitación del paisaje: río” do artista Óscar Bueno, realizada no Citemor, em Montemor-o-Velho, Julho de 2025
Óscar,
Tive que parar.
Não por educação, nem por respeito, foi o caso do meu corpo que não conseguiu seguir como estava…
(((“A gente teve que se acostumar com aquilo. Às penas que, com aquilo, a gente não se acostumou, em si, na verdade”, JGR, 1962)))
Diante da paisagem que você convocou, levado eu fui contigo, suspendi os hábitos do olhar.
Parei, como quem consente ser movido.
Parei, como quem aceita o estar à deriva.
Havia ali, diante de mim, uma monumentalidade silenciosa:
a paisagem à beira do Mondego;
recortada pelo teu gesto: l_e_n_t_o; s_e_n_s_í_v_e_l; e_s_t_e_n_d_i_d_o nos tempos.
Essa paisagem não era natural.
Digo estética, multisensorial, construída no plano da escuta e da excitação.
Era uma coreografia de presença,
onde o som [_____] e o corpo [_____] atra_vessa_vam [_____] e dançavam às m\ ar /gens.
(((Vez, Versavam Verso, Versavam Avesso, Fúúúúúúúúúúú, Frúúúúúúú, Fhruuuu, Vez)))
Uma (c)obra expandida, assim feita de camadas que, ora se tocaram, ora se diluíram:
— o teu corpo junto ao rio, ora movimento, ora eternidade;
— o espelho na água, que me devolveu, a mim mesmo, em Narciso desarmado;
— o barco que atravessa e encena a tua margem;
— o barqueiro que é tu, conduzindo-nos sem pressa;
— o livreto com imagens de palavras, sonhos dispersos, que ora narra, ora abandona;
— os sons que te habitavam, mas também vinham da natureza e da cidade, e que, fundidos, intrusivos, ampliavam a espessura do visível.
Cada pessoa com seus escutadores, laborando.
Cada escuta, uma oferta de decisão.
Cada margem, um acontecimento diferente.
E ainda assim, o milagre do partilhado.
(((Mesmo com os olhos, vejo os olhos que mareja, é um passarinho delicadinho que a estar a plainar, momento mesmo tanto, aqui, passarinhorinho pequeninhoninho, suas guelras guerras anacrônicas aladas, tingidas dinossáuricas de impossível que, lá no transe da minha trama em terra que me dê chão, trama de sonho pesado no meu tear, assim, linha por linha, escrevo fio por fio, uma paisagem Tessalônica, arcaica, tramada em feitos épicos invisíveis nos grânulos pictóricos, é passagem paisagem con-fiada, de muitos muitos muitos muitos tensos fios dos homens em suas lutas, está tudo bem ali, junto-ruína com rio, junto-rindo, rio arruinado rindo, bem ali, vê ou não vê? Carne tessitura com o mundo, vem cá, Sem-Nome, vem cá, pousa em mim)))
Ali, compreendi: a paisagem que você sustenta não se contempla. Ela se habita!
Acionei a máquina de datilografar.
# Ontem um rio moveu-se em mim
pantanoso evocou seus deuses
Antes de ontem era noite
sombras orquestraram sons
pirilampos dançaram com peixes
e as estrelas: independentes do céu #
(((Corte de paisagem no espelho, leio que a chuva está chegando, são imagens recortadas na teia que faço de lã, o outro lado, do Rio, do Atlântico, do mundo, convocar imagem em fio, tecer em mim uma poesia, meu corpo em vocação fiadora, Carta-Rio que desliza, contaminar-se)))
Não há uma posição segura para ver a paisagem, há que estar im-plicado, muitas e muitas plicas, como quem submerge e não apenas ad-entra, ad-voga na água.
Excitação, então, não como agitação, mas, estado de sensibilidade acesa.
Excitação, explosão? Estado de sensibilidade incandescente.
(entre o espelho e o barco,
é o que corpo vira margem.
e a margem, escuta.)
Depois daqueles dias, me recolhi.
gri-i-i-i-i-i-i-i í í í — gririririri-ririrí
“Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido.
Ninguém é doido. Ou, então, todos.
Só fiz, que fui lá. [_______________] Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. [_________________________________cá estou, do outro lado, esperando, na paisagem, esperando_________
________________________________] Ao por fim, ele apareceu [_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________há
muito
espero____________________________________( )_________________________muito_____________________(
gri-i-i-i-i-i-i-i í í í — gririririri-ririrí
)__________________________________________________________________________muito_______________________________________, aí e lá…” (JGR, 1962)
Voltei para a casa flutuante em residência flutuante, casa extensão da paisagem, e depois, ao meu atelier de paisagens, vi algo se gestando,
manifestando, devagar,
esse algo, entre palavra e nó,
entre imagem e trama.
Foi quando comecei, o te-cer, a te fazer ser.
Usei lã de ovelha bordaleira, que é nos meus sonhos a lã que recolhi da tua terra, uma folha de papel fotográfico, fatiado-fiado, para tramar o desejo, um galho que apanhei no percurso e que su-porta as imagens que extraí do teu corpo em ação, e o espaço, Óscar.
(((Um corvo parece rosnar, piar-ar, guizar-ar, insiste-ar!)))
Mas nada foi uma tentativa de arquivo.
Foi tradução. Expansão. Excitação. - ar
(((Foi o corvo quem trouxe em amigo tessitural, tessiturânico, mistérico: seu barulho sacode chocalhos, insistem insistem, ambos)))
Minha resposta ergueu-se como objeto visual, um manto, uma superfície que se move.
E depois virou escritura, literaterra, ou talvez haja sido sempre, as duas coisas; as duas margens:
a trama do têxtil como escrita performativa,
você e eu,
as nossas sombras,
A escrita como matéria visual.
A lã veio para dar consistência à memória do solo.
A folha, como gesto de decomposição da imagem.
Como se dissessem: nada aqui está para fixar. Tudo escorre, shhhhhhhh, shhhhhhhhhi, shhhhhhhuuuuuuuá...
Como a água... Como o tempo… Como teu trabalho.
Camuflar e Contemplar, dois verbos que atravessaram a tua primeira paisagem.
Dois verbos cujos modos de ações sugeridos tornaram bússolas para mim:
Camuflar-se não é desaparecer, mas reorganizar o visível.
( ________)
Contemplar não é parar, é afinar a escuta.
_____(_ __)
Meu trabalho têxtil não ilustra o teu.
Ele te responde.
A trama deita sobre tua paisagem, e interroga:
o que de mim também é rio?
o que de mim também se move?
o que de mim precisa decompor-se para seguir vivo?
(((Escuto Caetano Veloso, em A Terceira Margem, 1991)))
(e o que escapa da imagem,
a lã tenta conter;
e o que escorre do som,
a escrita tenta amparar.
desculpa, às vezes não consigo)
Penso no tempo em que estivemos juntos: tu, a paisagem, nós o público.
Na lentidão que não era demora, mas política.
Na escolha de estar-junto sem querer controlar o rio.
Na forma como teus gestos desorganizaram o que eu esperava.
Ali, fui obrigado a atualizar o meu olhar.
A lembrar que nem toda crítica nasce de juízo.
Às vezes, pensar nasce de escutar.
Naquele instante, lembrei de Diana Damian Martin, não como referência, mas como dobra.
Em uma conversa recente, dizia que há falas que não querem traduzir o mundo,
mas torcê-lo, reescrevê-lo em outro ritmo.
Falas que nascem do desvio, do quase, do entre.
Tecer espaços, volumes com espaços, palavras e espaços.
(((o corvo-corpo me bicou, ferido, estou em grunhidos na paisagem)))
A tua paisagem me ensinou isso:
a possibilidade de existir entre margens,
de fazer da arte um espaço de deslocamento sensível.
Ali, a crítica não veio da análise.
Veio do corpo que se deixou afetar.
Do artista que escreve com fio.
Do espectador que responde com gesto.
(((o rio ensina que nada se mantém fixo.
o artista, que tudo pode ser forma de escuta.
e a paisagem, onde habitar é também compor)))
Óscar,
Esta carta é minha travessia.
Não te escrevo para explicar o trabalho.
Escrevo para te dizer o que fizeste comigo.
Tua obra é mais um deus fundido em mim…………………….
“E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo. Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto - o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos!” (JGR, 1962)
…………É longo mantra, para ser ativado exige seu tempo em meditação total.
E me toca,
não pelo excesso, mas pela contenção.
Pela forma de convocar presença sem gritar.
Pelo modo como, tuas paisagens, feito escapas:
desprendem corpo, som, lentidão e implicação.
Teu trabalho me ajuda: a lembrar que arte, no meu real, é uma forma de viver.
Obrigado por mover minhas margens.
Segue fluido.
Ed Freitas
::NOTA::
Esta carta é parte de uma resposta performativa ao espetáculo “La excitación del paisaje: río”, apresentado por Óscar Bueno, no festival Citemor 2025. O texto foi escrito como imagem, enquanto uma resposta visual: um manto de lã e papel fotográfico que tece imagens do espetáculo em decomposição, camuflagem e reconexão. Entre a carta-tecida e o objeto-tecido, proponho uma leitura em deslocamento físico ocular, que não busca tradução direta, mas atravessamentos sensíveis de um texto-têxtil, indo e vindo, alinhavando superfícies relacionais. Não há separação entre materialidades, uma vez que as linguagens oferecem imersões tessiturais nascidas pela comunhão na paisagem. Como propôs Damian Martin, já citada, em conversa: talvez o que fazemos seja torcer a linguagem, para deixá-la vibrar em outros tempos. Aqui, precisamente, escrevo com o que escorre.
há-nexo 1:
há-nexo 2:
Quinta-feira, 18:06, Residência Vivenda Adélia Caiado
31/7/2025
Texto: Ed Freitas
Áudio-visual: Ed Freitas