#6 O samurai errante e o rio do mundo: poética do deslocamento em Mundagawa de Orquestina de Pigmeos por Letícia Maia
Mundagawa, obra do coletivo Orquestina de Pigmeos — formado pelos artistas Nilo Gallego e Chus Domínguez — em colaboração com Katsunori Nishimura, músico e artista japonês radicado na Espanha, foi apresentada como uma travessia visual e sonora onde história, mito, biografia e ficção se entrelaçam, criando uma experiência marcada pelo estranhamento e pela poesia.
No filme, Katsunori dá corpo a um samurai errante que caminha em silêncio pelo curso do rio Mondego, desde a foz até o seu nascimento — entre arrozais, salinas, margens, o próprio rio, o mar, atravessando também partes da cidade de Coimbra. Sua trajetória não é apenas geográfica, mas uma navegação entre tempos e territórios, por memórias possíveis, suspensas entre o real e o ficcional, dando relevância aos encontros e relações que se constroem pelo caminho.
Inspirado na história de samurais japoneses enviados à Europa no século XVII para negociações diplomáticas, comerciais e políticas — em que depois da missão fracassada uma parte deles nunca retornaram ao Japão, tornando-se expatriados — Mundagawa embarca na hipotética jornada de um samurai que trafega por esse território, cruzando história ficcional e biografia. Katsunori, corpo estrangeiro e silencioso, observa, escuta e nos guia. Sua presença, situada entre o mundano e o onírico, provoca um deslocamento perceptivo: a figura de um samurai deslocado no tempo-espaço, mas intensamente ancorado no presente.
O título Mundagawa não tem tradução literal, mas a palavra pode ser interpretada como a fusão de “Munda” — possível alusão ao rio Mondego ou ao próprio “mundo” — com “gawa” (川), que significa “rio” em japonês. Assim, o nome pode ser lido como “rio do mundo”. Esse neologismo reforça a ideia de uma travessia cultural e simbólica, de um corpo estrangeiro que flui por territórios híbridos onde memória, ficção, paisagem e território se entrelaçam.
A montagem de Mundagawa se constrói por fragmentos — exercício de colagem de imagens, sons e acontecimentos — que dialogam com universos distintos e criam uma estrutura aberta, guiada também pelo acaso e pela improvisação, princípios centrais processo de trabalho do coletivo. A percepção do tempo no filme é espiralar, deslocamento continuo, conduzido pela presença, pelo movimento cíclico e pela gestualidade coreográfica do percussionista.
A música experimental — composta em uma língua-mãe já não totalmente própria, mas distorcida e híbrida — atravessa o filme como uma rede invisível que entrelaça tempos e geografias. Em cortes abruptos, somos transportados a um estúdio onde duas mulheres japonesas manipulam frequências e texturas sonoras. O som parece materializar uma busca por sintonia e ressonância — como se a paisagem do Mondego e o corpo do samurai fossem lidos, tocados e ressoados à distância. Um ritual acústico de contato, uma comunicação ancestral e futurista que dialoga com a travessia de Katsunori.
A poética do filme, embora se valha de recursos épicos, não se manifesta em grandes feitos ou batalhas, mas na repetição silenciosa e contemplativa do caminhar errante. Ao evocar uma situação histórica por uma perspectiva contemporânea que se cruza com a biografia do artista, Mundagawa constrói uma poética, onde o estranhamento e a alteridade são forças capazes de recriar narrativas e abrir novas leituras sobre identidade, memória, pertencimento, deslocamento e travessia.
Nesse sentido, o filme ressoa com a frase “Foreigners Everywhere” (Estrangeiros em todo lugar), que deu título à 60ª Bienal de Veneza. Criada pelo duo Claire Fontaine, a obra — composta por esculturas em neon que repetem a expressão em diversas línguas — carrega uma potência simbólica fundamental: além de problematizar a condição sociopolítica de ser marcado como estrangeiro, reconhecendo que estes estão em todos os lugares, ela nos lembra que a estrangeiridade é também uma condição existencial. Somos, no fundo, sempre estrangeiros — onde quer que estejamos — vivendo sob um estado constante de deslocamento e estranhamento.
Claire Fontaine: Foreigners Everywhere / Stranieri Ovunque (60th Internationale Art Exhibition / 60. Esposizione Internazionale d’Arte), 2024, Arsenale, Venezia.
Ao apresentar um corpo estrangeiro, marcado pela diferença, que não se encaixa na paisagem habitual do rio Mondego, Mundagawa ecoa essa reflexão. A presença silenciosa do samurai — deslocada, integrada e, ainda assim, não pertencente — provoca um desvio na percepção. A ficção especulativa e onírica do filme desloca e fragmenta o cotidiano, desarticula o hábito, desterritorializa o olhar. É nesse estranhamento, nesse olhar que se renova diante do conhecido, que se inscreve sua poética.
Mundagawa é, como o percebo, uma meditação sobre o deslocamento — sobre uma identidade que se dissolve e se refaz no encontro com o outro e com os lugares que habita. É também um exercício de fabulação especulativa sobre o tempo — mítico, histórico e cinematográfico. O samurai de Katsunori não é apenas um personagem, mas um vetor de sentidos, que carrega em seu silêncio uma escuta profunda do mundo. No encontro entre a margem portuguesa e um rio imaginário que corre desde o Japão, o filme me faz perguntar: o que permanece quando já não se pode voltar? Quem guarda os mitos que montam e remontam nossos imaginários de pertencimento?
Estar em residência no Festival Citemor, a convite do performingborders, tem me permitido conviver com os processos dos artistas, entre eles a Orquestina de Pigmeos. As conversas ao longo dessas semanas revelaram uma metodologia, sustentada por uma prática artística interdisciplinar que transita entre arte sonora, cinema, performance e música experimental. Seus projetos se desenvolvem de modo situado, a partir de imersões prolongadas nos territórios, em escuta sensível às paisagens, às pessoas e comunidades, permitindo que o acaso, o risco, o erro e a improvisação atuem como forças criadoras. O filme pode ser lido, também, como uma homenagem a Katsunori, cuja maneira de estar no mundo é atravessada pela música. Sua escuta é gesto, presença, modo de vida. Para ele, fazer música não é apenas criar — é experimentar o mundo. É transformar o cotidiano em matéria sonora, onde som e existência se confundem e a arte se faz inseparável da vida.
04/08/2025
Texto: Letícia Maia
Fotos: Susana Paiva