2# GAY-ME: uma proposição crítica performativa em forma de jogo
por Ed Freitas
Domingo, 12:48, Residência Vivenda Adélia Caiado
1. As regras do GAY-ME
Começo pelas mãos. As mãos que tocam, que bordam, que costuram e que depois escrevem — escrevem como quem traça caminhos sobre tecidos. Mãos que confundem-se com fios e com os veios daquilo que já vi, vivi, toquei, sonhei. É com elas que reflito — não no silêncio do pensamento abstrato, mas no atrito da matéria.
As palavras que não foram ditas — as que ficaram suspensas — pesam agora sobre os dedos. E são lançadas como dados: dados desviados, tendenciosos, enviesados. Dados performáticos. Dados que são também voz, tecido, texto e corpo.
Lanço o dado do jogo e do gesto. E logo já não sei onde termina o jogo e começa o gesto. A crítica, aqui, é escrita tênue entre escutar e costurar. É menos uma análise do que um processo de artesania sensível, onde cada palavra está carregada de vibração, escuta, subjetividade e atravessamento.
Neste jogo — apresentado entre performingborders e o festival Citemor 2025 — invento outra crítica: não uma que julga ou enquadra, mas uma que se borda junto da obra, dos afetos e dos corpos que a vivem.
Trata-se de criar dados têxteis, bordados, sensoriais, que não decidem o acaso, mas revelam intersecções: sujeitos, verbos, signos, afetos — forças que me atravessam como artista, como nordestino, como filho do sertão e da mãe solo, como pesquisador de um outro modo de dizer, de lembrar, de agir.
2. O que eu vi: o contexto e o contágio das obras
Sónia Baptista – Dykes On Ice
Um solo que se quer plural. Um corpo que se desmonta em teatralidade e se reconstrói em amor, desejo, política. A palavra "grelos" como sinal e sintoma: erotismo e política? ironia e raiva? Em 2010 ou 2025, seguimos atravessando desertos — e desertos também são lugares de presença.
Paz Rojo – Hipersueño
Delírio como forma de recusar o mundo. Uma cena que implodiu o tempo e escancarou o incômodo. O espaço da artista é ruína fértil — lugar onde o corpo se sustenta na instabilidade. O som me atravessou e algo em mim — proteína, talvez? — despertou e gemeu.
3. Os objetos do jogo: dados para ver, escrever e dançar crítica
Dado 1: Dykes On Ice
Seis lados: três cor vinho, crochetados com palavras — Solo, Corpo, Ice. Três brancos: Amor, Grelos, 2010.
Um dado que gira no mistério de dizer e de ler, entre memória e temperatura, entre erotismo e resistência. O solo é palco, é grito, é arquivo. O corpo transita: entre símbolo e suor.
Dado 2: Hipersueño
Seis lados cinzentos com letras: A, T, C, G — nucleotídeos, códigos genéticos. Dois retângulos bordados com Base e Núcleo.
Este dado não apenas gira: ele se recompõe. Ele reescreve. É um novo código genético da crítica, da minha crítica, do meu hiper-sonho — onde a biologia também pode doer.
4. Vamos jogar
Possibilidade A: role um dado por vez
Possibilidade B: role os dois ao mesmo tempo
Instruções:
U. Feche os olhos.
V. Escolha um dado.
W. Role-o.
Y. Leia a palavra que caiu.
X. Com essa palavra, escreva uma pergunta para o mundo.
Z. Pergunte sem medo.
Este jogo não se encerra com respostas — ele se alonga em perguntas.
Continue perguntando. Continue escrevendo.
Cada resposta será outra dobra. Cada dobra, um fragmento de crítica.
P.S.: SE QUISER, EXTERNALIZE UM GESTO!
Dance. Borde. Escreva. Pinte. Cante. Grite.
Cada participante faz sua ligação. Cada partilha gera texto.
As intersecções são o texto.
O texto é um mapa.
5. Arabesco final: performar pensamento como gesto
Coimbra, 20 de julho de 2025. Sol em Leão.
Bordo o tempo com os olhos de Agamben, a desobediência sáfica de Sónia, a ruína intencional de Paz.
Cada palavra que escrevo é também parte da minha dança — um convite ao (de)lírio como forma de pensamento.
"Se o mundo é passado": Paz, escrevemos para fazê-lo presente.
"Se a arte é ruína": bordamos ruínas com fios de inquietação e afeto.
"Se a experiência se paga": pagamos com o corpo, com o cansaço, com a vibração.
"Se o corpo desdobra": escrevemos para o corpo dobrado, para o corpo partilhado.
Escrever, para mim, é performar o que ainda não sei.
É transformar agulha e fio em perguntas.
É des-virar. É torcer.
É criar crítica como quem dança pontos de crochê no abismo da linguagem.
Neste arabesco crítico e sensível, cabem Sónia, Paz, o Sol em Leão (que já já será Virgem), os grelos não ditos, a adenina da resistência, o gelo do solo, o amor não nomeado, mas sempre entrelaçado.
Lanço os dados.
Eles decidem.
Eles convidam.
A jogar.
A perguntar.
A viver.
*
Anexo desviado
Players do GAY-ME:
Nilo Gallego (Orquestina de Pigmeos)
¿A que hora voy a dormir hoy?
Ice - Adenina - Ice - Citosina - Ice - Adenina - Guanina - Grelos - Adenina - Grelos
Chus Domínguez (Orquestina de Pigmeos)
¿Por qué jugar?
Solo - Timina - 2010 - Guanina - 2010 - Adenina - Adenina - Solo - Adenina - 2010
22/7/2025
Texto: Ed Freitas
Fotografia e vídeo: Ed Freitas