MARIA: atriz, criadora, estrela em expansão.
PAULA-ED: performer, ensaísta têxtil, bordadora de intuições.
CARLOS JESÚS: profeta bastardo, tradutor intergaláctico.
Fotos: proposições e composições de Maria Garcia Vera, na Vivenda Adélia Caiado
Uma festa de aniversário feita de fragmentos.
Instalação improvisada: galhos secos tramados com crochet, flores mortas, PowerPoints impressos e um bolo feito de livros.
(Som de microfone chiando. Um projetor acende por acidente. Paula-Ed está com um par de meias. Carlos Jesús segura uma balaclava. Maria entra, assiste, não entende.)
MARIA
Vocês tão montando a cena?
Ou desmontando?
PAULA-ED
Nem cena. Nem desmontagem.
É o acúmulo depois do palco.
A poeira. O enjoo. O que não cabe na crítica escrita.
Estamos montando tua festa, Maria.
Ou teu velório performativo.
Ainda estamos decidindo.
CARLOS JESÚS
É um nascimento!
Ou um portal.
Tu abriu o palco e a gente saiu pela lateral, sem saber pra onde.
(Paula-Ed veste o elmo de galhos.)
PAULA-ED
Carlos… esto no es muy… confortável?
CARLOS JESÚS
Não é pra conforto, Paula.
É pra transmudar.
Essa antena conecta com as estrelas.
Mira! Maria descalçou. Os sinais estão chegando.
(Maria senta. Observa em silêncio. Anota.)
PAULA-ED
(Espia as meias de lã.)
Essas são tuas, Maria?
Não sei como elas vieram parar aqui…
MARIA
(Sem sorrir.)
São.
CARLOS JESÚS
Mas são do futuro.
(Maria sai pra fumar. Uma luz azul acende. Um bolo feito de livros aparece na mesa junto com outros apetrechos)
(O espaço é um caos cerimonial: flores secas, PowerPoints colados torto, crochet, uma máquina de costura. Carlos pendura a coroa-pulga. Paula-Ed decora o bolo com folhas arrancadas de um caderno verde bandeira. Maria volta. Finge não notar.)
CARLOS JESÚS
Rápido. Ela tá vindo.
Esconde o mejunje!
PAULA-ED
Deixa o mejunje. É parte do trabalho.
O bolo tá pronto. Feito com PowerPoints vencidos.
Não sei se é comestível.
CARLOS JESÚS
Mas é legível?
PAULA-ED
Não. E ainda bem.
Bolo assim não se digere.
Se fermenta.
(Maria entra. Olha tudo.)
MARIA
Ainda estão montando a cena?
PAULA-ED
Ainda não.
Talvez… uma festa?
De inícios?
CARLOS JESÚS
Surpresa!
MARIA
Pra quem?
PAULA-ED
Pra ti. Parabéns!
MARIA
Por quê?
PAULA-ED
Porque tu nasceste em cena,
Repetidas vezes.
E a gente não sabe o que fazer com as pulgas na coroa.
Tentando não desconectar.
(Maria sobe num banco improvisado. Gesticula. Dirige.)
MARIA
Voltem ao início.
Mas sem repetir igual.
Comecem de novo.
Como eu fiz.
(Paula-Ed veste o tecido transparente com palavras mal bordadas.)
PAULA-ED
(Lendo mal.)
“Mira… el… silên…cio condensado…”
É teu?
MARIA
É.
O silêncio é condensação do real.
PAULA-ED
Como assim?
MARIA
Política silenciosa tem potência!
PAULA-ED
Hã?
MARIA
As palavras estão tóxicas, Paula.
Repita-as.
Reborde-as.
Re-diga.
PAULA-ED
Até que o início se canse e abra?
Como é difícil começar...
MARIA
Mas tu entendeu?
PAULA-ED
Entendi como quem não fecha.
Por isso essa festa.
Esse bolo.
Essa tentativa de interpretar.
CARLOS JESÚS
(Espiralando com a coroa-pulga.)
Este figurino é do prólogo?
CARLOS JESÚS
(Profético.)
Pra vesti-lo, tem que aguentar a coceira.
(Paula abre o caderno verde.)
PAULA-ED
“Ela falou sobre começar como quem planta,
mas sem esperar colheita.
Como quem se deita nua sobre livros,
não pra ler, mas pra ser lida por eles.”
Tua peça, Maria, não explicou.
Obrigou resposta.
Respondi com crochet.
Com restos.
Com crítica vestida de poesia e carne seca.
Esse é meu presente.
Esse bolo de “não sei o quê”.
CARLOS JESÚS
Tu foste canal.
Como eu.
Disseste: “14 ou 17 é dia 01.”
Eu entendi.
É ciclo.
É reinício.
É coreografia celeste de palavras tortas e meias suadas.
Isso é mojón.
Isso é arte.
Tu me disfarçaste de piolho
e eu agradeço.
(O bolo começa a ruir. Paula salva um pedaço bordado com “enjundia”. Carlos sopra as velas. Maria reorganiza com o olhar.)
PAULA-ED
(Público = Maria)
Nossa crítica é uma cena.
Que não termina contigo.
Tu és personagem e autora involuntária.
CARLOS JESÚS
Jesus Crista da Via Láctea.
Atriz do enjoo e do jolgorio.
MARIA
Mas eu só queria… começar algo…
PAULA-ED
E começaste.
O que ficou em nós agora responde.
Com objetos.
Com personagens.
Com esse teatro que é crítica —
com pulgas.
CARLOS JESÚS
E com perguntas vestidas de imaginação.
PAULA-ED
Tu és como Lily, nua sobre livros.
Hoje és quem nos cobriu de pulgas?
(Maria e Carlos riem.)
MARIA
O que eu faço com isso?
PAULA-ED
Nada.
Ou tudo.
Come.
Com a mão.
Reinicia.
Nosso presente é tua atuação:
Não como interpretação literal.
Mas instalação.
Continuação torta.
CARLOS JESÚS
Tu criaste um trabalho que não termina.
A resposta também não.
Ela escorre.
Gruda.
Fermenta.
MARIA
Quem bordou “sentar un preferente”?
PAULA-ED
Fui eu.
Soou bonito.
Não sei o que quer dizer.
CARLOS JESÚS
Quer dizer tudo, Paula.
É o que se sente antes de entender.
(Luz pisca. Silêncio. Todos sabem algo.)
MARIA
Vocês acham que estão me surpreendendo?
PAULA-ED
A gente só queria...
Celebrar.
Vestir o que tu nos deste.
MARIA
(Veste suas meias verdadeiras.)
Vocês acham que isso tudo…
não estava previsto?
CARLOS JESÚS
Foste tu que me enviaste.
Desde Raticulín.
(Risos.)
(Maria desamarra o tecido de Paula. Enrola-se. Senta no chão.)
MARIA
(Interpretando.)
Pra quem estou falando?
CARLOS JESÚS
Pra nós.
Pra eles.
Pra quem já foi.
E tá voltando.
PAULA-ED
Não entendi a pergunta, pode repetir?
CARLOS JESÚS
Pra quem ler.
Pra próxima pulga.
Pra tua peça que segue… agora… aqui.
MARIA
(Deitada, olhando pro alto.)
“Mira o céu.
1…2…7…41…
Tiros.
Estamos nuas.
Uma peça despedaçada cai.
Textos seguem em revoada.
E vocês?
deitem quantas vezes for preciso.
Vejam as pistas.
Reencenem a versão.
Sigam com ela.”
FESTA, RESTO, FIGURINO E PROFECIA: CENA QUE NÃO SE EXPLICA
Esta peça nasce como um texto-resposta, em recusa de ser (apenas) resposta. Antes, ela se desdobra como matéria proliferante, que se instala no espaço instável entre crítica e criação. O gesto que a inicia vem de um convite: responder a uma obra performativa La Vía Láctea, de Maria Garcia Vera. No entanto, como responder na linguagem quando a própria obra dissolve a resposta como finalidade?
O que se apresenta aqui não é um "comentário", tampouco uma reconstrução do objeto original. É uma dramaturgia que se apropria da linguagem da própria arte para reencenar o afeto que dela emergiu. Como num ritual ampliado, propõe-se uma festa, uma cena, uma instalação dramatúrgica, um bolo de livros, uma palavra vestida em crochet e resíduo.
Há três personagens, que são também três instâncias de trabalho dramatúrgico:
Maria, a criadora encarnada, que sabe que é seu aniversário, mas entrega o lugar central à outra, como quem entrega um papel para ser interpretado com a alegria que ela não consegue acessar;
Paula-Ed, sua dobradiça simbólica, que se faz passar por aniversariante numa performance hesitante e devotada, tentando traduzir a festa num gesto de amor e substituição;
Carlos Jesús, profeta intergaláctico, espécie de médium carnavalesco e filósofo bastardo, anunciador do destino cósmico da protagonista, aquele que revela que Maria é Jezúza Khrista da Via Láctea inteira.
A dramaturgia investiga o espaço do erro, da dúvida, da repetição, da tentativa como força poética. Uma dramaturgia da hesitação e do equívoco, onde o teatro é o lugar do não-saber que pulsa. Há um deslocamento do centro: Maria se multiplica como cena e como personagem, cede o protagonismo para uma Paula-Ed que hesita, falha, tenta; e é nesse esforço, nessa entrega imperfeita, que se funda a potência teatral da encenação.
Como o convite era feito no interior de uma prática crítica e curatorial, o texto escolhe deliberadamente não ocupar o lugar habitual da crítica. Ele recusa o protocolo do juízo, da mediação clara, da leitura hierárquica. Em vez disso, responde confundindo a lógica crítica com a linguagem da própria obra: montagem, acumulação, cacos, reinício, voz fragmentada, anotação costurada, pergunta performada.
Este é o terceiro experimento por mim realizado como fiador para o Citemor, no sentido que fiador (garantidor), fiadeiro (garantidor de fios) dá ao termo: como quem puxa um fio, expande um novelo, enreda um pensamento.
O primeiro experimento tramava texto e signo, em um volume lúdico de crítica-imagem.
O segundo desdobrava-se em paisagem, a crítica-rio.
Este terceiro, entrega-se ao volume figurinal de uma dramaturgia dentro da dramaturgia, como um tecido de perguntas que não se responde, apenas se encena.
O texto não propõe a peça como reconstrução da performance original, mas como sua reverberação em outro regime. Ele se funda em algo que não pode ser traduzido diretamente: um resto que ficou no corpo, uma emoção não nomeada, um gesto de espectadora que vira autora. Se em La Vía Láctea havia algo de uma saudação celebrativa performativa, aqui essa festa é retomada como ritual de escrita dramatúrgica, uma dramaturgia-festa que se recusa a acabar, não menos deboche sobre o real.
Escrito para uma companhia de três atores muito experientes, a ser encenado em um palco não convencional, o texto exige uma presença densa, capaz de sustentar o excesso e o silêncio, o trágico e o burlesco. Há um trabalho poético com a linguagem que pede intérpretes precisos, mas abertos ao desvio. A forma do texto comporta o pensamento da hesitação e da ruína, mas também da revelação, do rito e da transformação. Como festa, como cena de passagem, como crítica que se traveste em ensaio aberto.
Aqui, as pulgas são metáforas de artistas: vivem do sangue, mas na peruca artificial não há sangue, então como sobreviver? O texto responde: as pulgas precisam descansar. Só pulgas descansadas podem amar. É também sobre isso esta dramaturgia, o descanso, o amor, a festa.
Há-nexo 01 (prova de figurino)
Há-nexo 02 (apanhar conexões)
07/08/2025
Texto: Ed Freitas
Fotos e Vídeo: Ed Freitas, em colaboração com Maria Garcia Vera e Xavier de Sousa