La Vía Láctea, de María García Vera, é um projeto de investigação artística que parte de questionamentos sobre a capacidade de uma pessoa modificar o seu destino. Em um contexto político-social onde imaginar alternativas às nossas formas de vida e produção parece cada vez mais difícil, o trabalho questiona como dar um primeiro passo para ativar uma direção diferente, ancorada no presente.
Partindo de um universo extenso de referências, o trabalho propõe uma travessia sensível que perpassa os limites entre corpo, palavra, pensamento, linguagem, imagem e presença. Apresentado como um solo cênico — ou uma conferência performativa, como a própria artista define — com toques de auto-ficção, eu diria, La Vía Láctea, mais do que representar uma narrativa, se coloca como uma investigação de possibilidades de enunciação e presença.
Propõe conexões improváveis entre elementos aparentemente dissonantes, como objetos, memórias, imagens, citações literárias, teóricas e filosóficas, música, auto-ficção, fragmentos de diálogos, magia, humor, telepatia, sonhos premonitórios e desespero — criando associações inesperadas para construir uma espécie de constelação performativa.
A peça se organiza em uma sequência complexa, composta por vários trechos, sessões ou “cenas”. Dentre eles, trago neste texto algumas imagens, fragmentos e sensações que mais ficaram marcados em minha memória — sem pretender dar conta do todo, o que, inclusive, me parece ser impossível e indesejável, visto que a própria artista nos diz que “é sobre não ver o todo”.
Em uma dessas cenas, a artista evoca e reperforma a fotografia Lily (2008), de Melanie Bonajo, onde uma mulher nua se equilibra sobre três pilhas de livros. A imagem, logo no início da peça, parece deslocar o saber de sua verticalidade tradicional para uma experiência encarnada, tátil e subjetiva. Em outro momento, uma lista de insultos agressivos dirigida a figuras sociais, políticas e cotidianas culmina em fantasias de violência com “artilharia pesada”. Um rito de expurgação que beira o cômico, mas que também revela dimensões de autoagressão e frustração coletiva diante de um cenário sociopolítico exaustivo, repetitivo, que nos parece sem saída.
Além dos prólogos, a artista nos convida a percorrer imagens aparentemente desconectadas: um piolho em uma peruca, o céu estrelado e o caminho do leite — atravessadas por transições, acúmulo e aceleração que costuram esses fragmentos numa lógica de justaposição e deslocamento.
E aqui, minhas memórias são confusas, sobrepostas, fragmentadas e desordenadas: vejo a artista saltando em uma perna só sobre um plástico transparente, como um piolho em uma peruca explorando a sensação de exaustão por buscar alimento em um lugar onde não há; a visão cósmica de um céu estrelado com “milhões de pontos luminosos”, projetado em uma parede de pedra efeito produzido com uma lanterna e um escorredor de macarrão; o resgate de um vocabulário de palavras “maltratadas” e gírias de sua língua-mãe (Múrcia); a artista pegando as mãos de alguém do público para falar sobre as estrelas, sobre sonhos e os sons que elas devem fazer; depois sentada desenvolvendo uma “dança de mãos” com uma música de fundo, etc.
Em certo momento, somos convidados a reorientar nossa posição em 90 graus. Ao virar, ficamos de frente para uma porta vazada que emoldura o céu estrelado e a lua. Não mencionei antes, mas o trabalho foi apresentado nas ruínas da Igreja de Santa Maria Madalena, em Montemor-o-Velho – uma construção de pedra, sem teto, anexada ao castelo. Esse céu real, visível, se funde às imagens cósmicas evocadas. Depois do giro, minha memória salta para a cena de uma “mulher planta”, onde a artista posiciona um conjunto de plantas, galhos e flores sobre seu corpo e os anexa utilizando fita adesiva colorida. Em pé, sobre um plástico fino e transparente, derrama uma garrafa de leite sobre a própria cabeça, tão natural quanto artificial — imagem que me parece evocar renascimento e nutrição, conectando-se com a ideia de via láctea que guia o trabalho.
A apresentação se constrói de forma cotidiana e direta: a artista conversa com o público, aciona seus dispositivos tecnológicos, como computador e celular, para acessar som, imagem e texto; expõe os papéis onde há o roteiro da peça e onde lê a lista de palavras que está dizendo; comenta suas próprias escolhas poéticas e materiais. Assume o artifício e a estrutura aberta, convidando o público a imaginar acontecimentos, mas deixando evidentes os dispositivos que opera — assumindo o que faz, expondo a não fixidez e a abertura flexível da estrutura do trabalho.
Essa estrutura se manifesta como um processo acumulativo e vivo, uma dramaturgia performativa que se estrutura como hipertexto, aproximando-se da noção de edição e montagem cinematográfica. Cada apresentação incorpora acontecimentos singulares de ensaios e apresentações anteriores, integrando sugestões e observações do público — amigos, profissionais ou pessoas desconhecidas — fazendo do trabalho um repertório em constante expansão, que nunca se repete exatamente igual. Dessa forma, a lógica que orienta o trabalho não é linear nem causal, mas rizomática — orientada por relações afetivas, associativas e intuitivas, valorizando a força relacional entre os fragmentos e sua capacidade de mover algo em nós.
Essa abordagem não linear e em constante construção é enfatizada pela artista como um “início de possíveis começos”, um “início de inícios” que se propõe a “abrir novos caminhos”. Posiciona-se como um campo de perguntas abertas que se recusa a se fechar em uma estrutura definida. Um gesto de recusa à ideia de um produto acabado, afirmando o inacabamento como potência e reinventando o ensaio como parte constituinte do trabalho. Uma estrutura rizomática, não linear e descentralizada, que não busca um sentido coeso para esclarecer ou ordenar, mas se interessa por habitar a ambiguidade e a incerteza como matéria cênica e de pensamento, oferecendo mais perguntas do que respostas.
Me parece muito interessante como o uso da palavra e da fala são tomados como ação no trabalho, onde a fisicalidade da linguagem opera como dispositivo de mudança de estados corporais — não apenas como relação de significados. A fala não pretende explicar a realidade, mas des-explicá-la, como palavras-semente lançadas ao público para deixar emergir e brotar o assombro diante de cada acontecimento.
Em diversos momentos, me identifiquei com o fluxo contínuo, acumulativo, acelerado, caótico e impaciente de pensamentos e ações que a artista materializa e articula — um acúmulo que, paradoxalmente, produz o efeito contrário: suspende, imobiliza e lentifica. Em um contexto saturado por estímulos, atravessado por dispositivos tecnológicos e por uma multiplicidade de informações e discursos que nos deixam exaustos, fatigados e muitas vezes sem ação, La Vía Láctea colabora para que possamos refletir sobre as tensões e os limites da racionalidade produtivista, do pensamento linear cartesiano e da busca por respostas prontas e imediatas.
O trabalho insiste na “exaustiva tentativa de encontrar uma saída no lugar errado”, como forma de criticar uma lógica de mundo que nos esgota, levando ao limite essa acumulação e excesso de informação, promovendo uma espécie de processo de exorcismo e expurgação. Como a própria artista afirma, é preciso “exagerar e inventar tudo para que algo ajude a viver de outra maneira”. Transitando entre o humor, o desespero e a potencialidade de ação, essa fabulação performativa não se reduz à fantasia, mas opera como estratégia para desestabilizar certezas e abrir brechas no cotidiano — um modo de reencantar a realidade, ancorando-se no presente, a fim de dar vazão a uma cotidianidade extraordinária.
Se o destino é linha dura, talvez seja preciso encontrar linhas flexíveis e linhas de fuga — sem começo nem fim, mas sempre como um meio por onde cresce e transborda. Fazer caminho por essa linha descontínua, saltar bem juntos. De referente a preferente. Uma constelação performativa para desorganizar, decompor, cruzar, mover, falar e bailar sobre as ruínas.
07/08/2025
Texto: Letícia Maia
Foto: Susana Paiva