por Dori Nigro
Arquivo pessoal
Neiva é uma pessoa discreta e de sorriso fácil. Recebeu-me no seu espaço de trabalho, no centro da vila de Montemor-o-Velho, para recordar aquilo que a memória permite lembrar da sua história com o Citemor, que se confunde com a história da vila e dos seus moradores. Neiva e, por extensão, toda a sua família é atravessada por este festival.
Chegada de Angola ainda adolescente, Neiva encontrou em Montemor um lugar onde construiu família, afeto e trabalho. Durante anos trabalhou como produtora do Citemor, dando corpo e vida através da relação com artistas e comunidade, relações essas que transcendem o próprio tempo-espaço do festival.
Neiva reconhece que este festival faz parte de uma construção coletiva. Segundo ela, o Citemor nasceu pelas mãos dos residentes de Montemor e isto precisa ser lembrado para que a memória não se perca. E, mesmo afastada da produção, por razões pessoais e familiares, nunca deixou de o acompanhar como espectadora, mantendo viva uma ligação construída ao longo de muitos anos.
Acostumada aos bastidores e preparando, cuidadosamente, o terreno para os muitos artistas que acolheu, Neiva, humilde como é, revela uma felicidade tímida por poder contar as suas memórias em pessoa. Nesta conversa compreendemos que a história de um festival, seja ele qual for, não se faz apenas de espetáculos, mas de uma vasta rede de pessoas que trabalham nas suas engrenagens invisíveis. Pessoas como Neiva, cuja presença discreta ajudou a construir um espaço de hospitalidade porque, naquele tempo, havia, sim, uma comunidade aberta e disposta a dar e receber.
Apesar de vivermos outro tempo em que as ideias e formatos de festivais têm vindo a ser repensados, o Citemor continua a ser, para ela, uma parte integrante da sua própria vida. A voz de Neiva confirma que a história de um festival não reside apenas nos arquivos, mas sobretudo nas vidas capazes de sustentar a sua continuidade. Durante anos, Neiva fez aquilo que muitos outros moradores também fizeram: converteram as suas casas numa espécie de criatório artístico. Num tempo em que quase não existiam recursos para alojamento, eram as casas dos habitantes que acolhiam artistas de diferentes países, transformando quartos, salas e jardins em espaços de convivência e experimentação.
As suas memórias desenterram um passado do festival profundamente enraizado com a comunidade e que hoje procura desenterrar esse vínculo. Mas será possível regressar a esse tempo? E que tempo é este que evocamos? Talvez seja importante compreender que os festivais, tal como as pessoas, mudam. E o tempo hoje é outro.
A centralização e limitação dos recursos e as necessidades de responder às exigências de um mercado cultural sempre em transformação fizeram com que muitos festivais acompanhassem os ritmos da institucionalização e da sua burocratização. O Citemor não é exceção. Perdeu algumas das formas de participação comunitária que marcaram o tempo de Neiva e daqueles que estiveram presentes desde o início.
Mas talvez a questão mais importante não seja pensar naquilo que se perdeu. Talvez seja outra: do que falamos quando falamos de comunidade? E que novas comunidades criar ou abarcar? A comunidade de que Neiva fala não é apenas um território nem um conjunto de moradores. Ao mesmo tempo, seria ingénuo desejar o regresso de uma comunidade idealizada, como se bastasse abrir novamente as portas das casas para recuperar um passado que já não existe. As comunidades também produzem exclusões, hierarquias e fronteiras. Também elas precisam de ser continuamente reinventadas.
É preciso perguntar-nos como é possível construir, hoje, outras formas de vizinhança entre artistas, moradores e espectadores. Como produzir um festival que continue a ser lugar de encontro sem deixar de acolher o conflito, a diferença e o risco.
Mais do que uma entrevista sobre o Citemor, este curto testemunho revela que a história de um festival também se escreve através daqueles que abriram as portas das suas casas e que continuam, à sua maneira, a abrir outras portas, mas também daqueles que não conseguem abrir porque não o sabem como. E os festivais, será que sabem abrir portas? Apesar das imposições de um tempo acelerado, reduzido ao fast food do chegar, apresentar e partir; apesar das exigências de produtividade, das estreias, dos indicadores, das críticas, dos gostos e dos relatórios anuais, o festival não deve ter medo desse risco de abrir e, consequentemente, fomentar a aberturas de novas portas.
Mas talvez o maior risco seja justamente não deixarmos de perguntar o que entendemos por risco. Risco para quê e para quem? Correr risco não significa necessariamente assumir uma posição negativista, mas antes uma forma de aprender continuamente com as incertezas da própria vida. Afinal, corremos risco em cada esquina. E mesmo assim continuamos a criar, a andar, a viver. E nesta comunidade nem todas as pessoas correm riscos da mesma forma. O bonito da comunidade reside neste lugar onde pensamos, criamos e vivemos de formas diferentes. É este espaço onde as contradições encontram condições para permanecer em relação. E talvez seja sobre isso que Neiva vem nos lembrar de que um festival não acontece apenas nos palcos. Acontece também nos bastidores. Nos diferentes palcos da vida que começa, por exemplo, numa mesa de jantar. Segue a nossa conversa:
Dori: Quem é a Neiva?
Neiva: (Risos) A Neiva de Montemor-o-Velho. Já estou a viver aqui há 44 anos... Não, agora já não. Vivi aqui durante 40 anos, porque agora estou a viver na Figueira. A minha primeira ligação aqui, com Montemor-o-Velho, foi com o pai da Madalena e do Xavier. Depois arranjei emprego na Câmara e fiquei por aqui. Num sítio como Montemor-o-Velho, que é pequeno, houve necessidade de me integrar em atividades. Primeiro trabalhei na Câmara Municipal, no Turismo, onde organizei as festas da vila, com os músicos que vinham atuar. Depois, passei para o Citemor juntamente com o CITEC.
No Citemor foi por volta de 1988, 1989, mais ou menos nessa altura, em que comecei a trabalhar na produção e, mais tarde, com o Armando Valente. E foi aí também que a Madalena e o Xavier começaram a integrar-se, porque andavam sempre atrás de mim para todo o lado. Acho que o bichinho do Xavier ficou aí. (Risos)
Mas foi muito bonito, porque trabalhei com pessoas lindíssimas, muito interessantes na sua maneira de estar e de ser. Acho imensa piada quando vou ao Porto, a Lisboa ou a outros sítios e as pessoas conhecem o nome "Neiva". Ficou gravado. Isso é muito bom… memórias lindas que trago comigo
Dori: A Neiva nasceu aqui em Montemor-o-Velho?
Neiva: Não, não. Sou angolana. Vim para cá quando tinha 15 anos. Primeiro vivi em Aveiro e depois é que vim para Montemor-o-Velho.
Dori: O Xavier comenta muito da sua relação com o festival. Eu passei por aqui e lembrei-me de uma casa, bem aqui atrás, onde a senhora vivia e que acolhia muitos artistas. O Xavier chegou a falar de ter cerca de dez a 15 artistas ao mesmo tempo durante o festival.
Neiva: Sim. O Citemor tinha uma coisa muito gira. Há muitos anos, no início, nós, a comunidade, abrimos as portas da nossa casa para receber os artistas, porque não havia dinheiro para pagar alojamentos. Estava tudo muito no princípio. Era muito giro porque o Teatro O Bando era praticamente residente na minha casa. (Risos)
Aliás, já nem era só na altura do Citemor. Durante o ano também vinham passar fins de semana ou apresentavam um espetáculo perto de Coimbra ou da Figueira e ficavam em minha casa. Eu tinha um quarto para o pessoal do Bando. E lembro-me de uma vez quando chego a casa, já era meia-noite, e vejo uma série de cabeças ao pé da porta. Pensei: "O que é que aconteceu aqui?" (Risos).
Sentiam-se tão à vontade na minha casa que trouxeram mais pessoas do Bando. Claro que não eram completamente desconhecidas, mas eram pessoas ligadas ao grupo que tinham vindo assistir ao espetáculo e podiam ficar lá porque não havia problema. (Risos). Tinham sacos e camas espalhadas pela sala, estava tudo pronto para dormir. Já nem sei quantas pessoas eram, mas era um número elevado. Havia essa vontade de acolher, de deixar as coisas acontecerem. Recebi muita gente mesmo. Agora dizer exatamente todos os grupos já não me lembro, porque foram tantos... Grupos polacos, espanhóis...
Depois houve também a Susana Paiva, fotógrafa, que ficou instalada no meu estúdio, porque eu tinha um estúdio no piso de cima. E a Cláudia Galhós escreveu alguns artigos no meu "jardim inacabado", como ela dizia. (Risos). Ela dizia que fazia o trabalho dela naquele jardim que estava sempre em mudança. Foi ali que escreveu vários artigos para o jornal.
Dori: Qual é a sua memória mais antiga do Citemor?
Neiva: Foi o primeiro festival em que trabalhei. Recebi o Óscar Branco, do Porto, em minha casa. Ele pensava que vinha para Montemor e que encontrava uma vila cheia de atividade. (Risos). Quando chegou, não havia nada aberto. Estava com fome e queria comer. Dentro daquele espírito do festival, daquela abertura e das ligações giríssimas que se criavam, convidei-o para minha casa para comer ovos mexidos. (Risos). Era a única coisa que eu tinha. Lembro-me também do espetáculo que ele fez, sobre um relato de futebol do Porto, introduzindo a figura do Almeida, que fazia os relatos de uma forma espetacular. Fiquei fascinada com ele. Depois veio todo aquele enredo da produção... Essa memória ficou sempre cá dentro. (Risos)
Dori: O Xavier fala que ele, basicamente, cresceu no festival graças a Neiva, porque a Neiva o levava ao Citemor, tanto a ele como à irmã, desde pequenos.
Neiva: Sim. Eles participavam muito no Citemor. Tinham de estar entretidos, não é? Ou iam levar coisas aos artistas, ou iam chamá-los, ou iam varrer o recinto. (Risos). E não eram só eles. Havia outros miúdos, colegas da escola, que participavam naquela brincadeira. Era uma forma de interagirem com as pessoas do festival.
Dori: É um festival muito antigo… e com muitas histórias, não é?
Neiva é uma pessoa discreta e de sorriso fácil. Recebeu-me no seu espaço de trabalho, no centro da vila de Montemor-o-Velho, para recordar aquilo que a memória permite lembrar da sua história com o Citemor, que se confunde com a história da vila e dos seus moradores. Neiva e, por extensão, toda a sua família é atravessada por este festival.
Chegada de Angola ainda adolescente, Neiva encontrou em Montemor um lugar onde construiu família, afeto e trabalho. Durante anos trabalhou como produtora do Citemor, dando corpo e vida através da relação com artistas e comunidade, relações essas que transcendem o próprio tempo-espaço do festival.
Neiva reconhece que este festival faz parte de uma construção coletiva. Segundo ela, o Citemor nasceu pelas mãos dos residentes de Montemor e isto precisa ser lembrado para que a memória não se perca. E, mesmo afastada da produção, por razões pessoais e familiares, nunca deixou de o acompanhar como espectadora, mantendo viva uma ligação construída ao longo de muitos anos.
Acostumada aos bastidores e preparando, cuidadosamente, o terreno para os muitos artistas que acolheu, Neiva, humilde como é, revela uma felicidade tímida por poder contar as suas memórias em pessoa. Nesta conversa compreendemos que a história de um festival, seja ele qual for, não se faz apenas de espetáculos, mas de uma vasta rede de pessoas que trabalham nas suas engrenagens invisíveis. Pessoas como Neiva, cuja presença discreta ajudou a construir um espaço de hospitalidade porque, naquele tempo, havia, sim, uma comunidade aberta e disposta a dar e receber.
Apesar de vivermos outro tempo em que as ideias e formatos de festivais têm vindo a ser repensados, o Citemor continua a ser, para ela, uma parte integrante da sua própria vida. A voz de Neiva confirma que a história de um festival não reside apenas nos arquivos, mas sobretudo nas vidas capazes de sustentar a sua continuidade. Durante anos, Neiva fez aquilo que muitos outros moradores também fizeram: converteram as suas casas numa espécie de criatório artístico. Num tempo em que quase não existiam recursos para alojamento, eram as casas dos habitantes que acolhiam artistas de diferentes países, transformando quartos, salas e jardins em espaços de convivência e experimentação.
As suas memórias desenterram um passado do festival profundamente enraizado com a comunidade e que hoje procura desenterrar esse vínculo. Mas será possível regressar a esse tempo? E que tempo é este que evocamos? Talvez seja importante compreender que os festivais, tal como as pessoas, mudam. E o tempo hoje é outro.
A centralização e limitação dos recursos e as necessidades de responder às exigências de um mercado cultural sempre em transformação fizeram com que muitos festivais acompanhassem os ritmos da institucionalização e da sua burocratização. O Citemor não é exceção. Perdeu algumas das formas de participação comunitária que marcaram o tempo de Neiva e daqueles que estiveram presentes desde o início.
Mas talvez a questão mais importante não seja pensar naquilo que se perdeu. Talvez seja outra: do que falamos quando falamos de comunidade? E que novas comunidades criar ou abarcar? A comunidade de que Neiva fala não é apenas um território nem um conjunto de moradores. Ao mesmo tempo, seria ingénuo desejar o regresso de uma comunidade idealizada, como se bastasse abrir novamente as portas das casas para recuperar um passado que já não existe. As comunidades também produzem exclusões, hierarquias e fronteiras. Também elas precisam de ser continuamente reinventadas.
É preciso perguntar-nos como é possível construir, hoje, outras formas de vizinhança entre artistas, moradores e espectadores. Como produzir um festival que continue a ser lugar de encontro sem deixar de acolher o conflito, a diferença e o risco.
Mais do que uma entrevista sobre o Citemor, este curto testemunho revela que a história de um festival também se escreve através daqueles que abriram as portas das suas casas e que continuam, à sua maneira, a abrir outras portas, mas também daqueles que não conseguem abrir porque não o sabem como. E os festivais, será que sabem abrir portas? Apesar das imposições de um tempo acelerado, reduzido ao fast food do chegar, apresentar e partir; apesar das exigências de produtividade, das estreias, dos indicadores, das críticas, dos gostos e dos relatórios anuais, o festival não deve ter medo desse risco de abrir e, consequentemente, fomentar a aberturas de novas portas.
Mas talvez o maior risco seja justamente não deixarmos de perguntar o que entendemos por risco. Risco para quê e para quem? Correr risco não significa necessariamente assumir uma posição negativista, mas antes uma forma de aprender continuamente com as incertezas da própria vida. Afinal, corremos risco em cada esquina. E mesmo assim continuamos a criar, a andar, a viver. E nesta comunidade nem todas as pessoas correm riscos da mesma forma. O bonito da comunidade reside neste lugar onde pensamos, criamos e vivemos de formas diferentes. É este espaço onde as contradições encontram condições para permanecer em relação. E talvez seja sobre isso que Neiva vem nos lembrar de que um festival não acontece apenas nos palcos. Acontece também nos bastidores. Nos diferentes palcos da vida que começa, por exemplo, numa mesa de jantar. Segue a nossa conversa:
Dori: Quem é a Neiva?
Neiva: (Risos) A Neiva de Montemor-o-Velho. Já estou a viver aqui há 44 anos... Não, agora já não. Vivi aqui durante 40 anos, porque agora estou a viver na Figueira. A minha primeira ligação aqui, com Montemor-o-Velho, foi com o pai da Madalena e do Xavier. Depois arranjei emprego na Câmara e fiquei por aqui. Num sítio como Montemor-o-Velho, que é pequeno, houve necessidade de me integrar em atividades. Primeiro trabalhei na Câmara Municipal, no Turismo, onde organizei as festas da vila, com os músicos que vinham atuar. Depois, passei para o Citemor juntamente com o CITEC.
No Citemor foi por volta de 1988, 1989, mais ou menos nessa altura, em que comecei a trabalhar na produção e, mais tarde, com o Armando Valente. E foi aí também que a Madalena e o Xavier começaram a integrar-se, porque andavam sempre atrás de mim para todo o lado. Acho que o bichinho do Xavier ficou aí. (Risos)
Mas foi muito bonito, porque trabalhei com pessoas lindíssimas, muito interessantes na sua maneira de estar e de ser. Acho imensa piada quando vou ao Porto, a Lisboa ou a outros sítios e as pessoas conhecem o nome "Neiva". Ficou gravado. Isso é muito bom… memórias lindas que trago comigo
Dori: A Neiva nasceu aqui em Montemor-o-Velho?
Neiva: Não, não. Sou angolana. Vim para cá quando tinha 15 anos. Primeiro vivi em Aveiro e depois é que vim para Montemor-o-Velho.
Dori: O Xavier comenta muito da sua relação com o festival. Eu passei por aqui e lembrei-me de uma casa, bem aqui atrás, onde a senhora vivia e que acolhia muitos artistas. O Xavier chegou a falar de ter cerca de dez a 15 artistas ao mesmo tempo durante o festival.
Neiva: Sim. O Citemor tinha uma coisa muito gira. Há muitos anos, no início, nós, a comunidade, abrimos as portas da nossa casa para receber os artistas, porque não havia dinheiro para pagar alojamentos. Estava tudo muito no princípio. Era muito giro porque o Teatro O Bando era praticamente residente na minha casa. (Risos)
Aliás, já nem era só na altura do Citemor. Durante o ano também vinham passar fins de semana ou apresentavam um espetáculo perto de Coimbra ou da Figueira e ficavam em minha casa. Eu tinha um quarto para o pessoal do Bando. E lembro-me de uma vez quando chego a casa, já era meia-noite, e vejo uma série de cabeças ao pé da porta. Pensei: "O que é que aconteceu aqui?" (Risos).
Sentiam-se tão à vontade na minha casa que trouxeram mais pessoas do Bando. Claro que não eram completamente desconhecidas, mas eram pessoas ligadas ao grupo que tinham vindo assistir ao espetáculo e podiam ficar lá porque não havia problema. (Risos). Tinham sacos e camas espalhadas pela sala, estava tudo pronto para dormir. Já nem sei quantas pessoas eram, mas era um número elevado. Havia essa vontade de acolher, de deixar as coisas acontecerem. Recebi muita gente mesmo. Agora dizer exatamente todos os grupos já não me lembro, porque foram tantos... Grupos polacos, espanhóis...
Depois houve também a Susana Paiva, fotógrafa, que ficou instalada no meu estúdio, porque eu tinha um estúdio no piso de cima. E a Cláudia Galhós escreveu alguns artigos no meu "jardim inacabado", como ela dizia. (Risos). Ela dizia que fazia o trabalho dela naquele jardim que estava sempre em mudança. Foi ali que escreveu vários artigos para o jornal.
Dori: Qual é a sua memória mais antiga do Citemor?
Neiva: Foi o primeiro festival em que trabalhei. Recebi o Óscar Branco, do Porto, em minha casa. Ele pensava que vinha para Montemor e que encontrava uma vila cheia de atividade. (Risos). Quando chegou, não havia nada aberto. Estava com fome e queria comer. Dentro daquele espírito do festival, daquela abertura e das ligações giríssimas que se criavam, convidei-o para minha casa para comer ovos mexidos. (Risos). Era a única coisa que eu tinha. Lembro-me também do espetáculo que ele fez, sobre um relato de futebol do Porto, introduzindo a figura do Almeida, que fazia os relatos de uma forma espetacular. Fiquei fascinada com ele. Depois veio todo aquele enredo da produção... Essa memória ficou sempre cá dentro. (Risos)
Dori: O Xavier fala que ele, basicamente, cresceu no festival graças a Neiva, porque a Neiva o levava ao Citemor, tanto a ele como à irmã, desde pequenos.
Neiva: Sim. Eles participavam muito no Citemor. Tinham de estar entretidos, não é? Ou iam levar coisas aos artistas, ou iam chamá-los, ou iam varrer o recinto. (Risos). E não eram só eles. Havia outros miúdos, colegas da escola, que participavam naquela brincadeira. Era uma forma de interagirem com as pessoas do festival.
Dori: É um festival muito antigo… e com muitas histórias, não é?
Neiva: Sim, sim.
Dori: E o Xavier recorda também que essa história tem muito a ver com a comunidade…
Neiva: No princípio havia mesmo essa ligação com a comunidade. As pessoas abriam as portas para receber os artistas. Ou tomavam conta dos filhos deles, ou deixavam-nos dormir em casa. Criavam-se laços de amizade muito grandes. A comunidade estava muito mais integrada.
Dori: A senhora acha que essa integração se perdeu?
Neiva: Perdeu. A partir do momento em que deixaram de existir as portas abertas e começaram a alugar espaços, muitas famílias perderam essa ligação. Depois também começaram a vir grupos diferentes, com outra maneira de fazer teatro.
Dori: Que espetáculo mais a marcou?
Neiva: Do Bando. Os Bichos, de Miguel Torga. Foi apresentado aqui no Castelo de Montemor. Eles dominaram o castelo todo. Havia um sapo que passava de um lado para o outro, víamos pessoas suspensas no ar. Conseguiram usar o castelo inteiro, não apenas um espacinho. Foi maravilhoso.
Dori: E como é hoje a sua relação com o Citemor?
Neiva: Olha, a partir de certa altura a minha filha teve um problema de saúde. Teve uma escoliose dorsolombar. Nesse ano tive de estar ao lado da Madalena. Ela foi operada e foi um processo muito doloroso, durante mais de dois anos, sobretudo psicologicamente. Foi aí que comecei a parar. De repente pensei: "Já não quero ir trabalhar. Quero só assistir."
Dori: O que espera para o futuro do festival? A senhora falou de um passado que se perdeu. Há coisas que gostaria que o festival recuperasse?
Neiva: O festival começou com um tipo de teatro menos ligado à performance… Mas do povo. Os artistas eram mais conhecidos. Havia espetáculos como A Guerra do Alecrim e Manjerona. Era um género mais clássico. Depois o festival foi-se transformando. Claro que, de vez em quando, apareciam espetáculos fora daquilo que era habitual. Eu acho que o festival poderia, a meu ver, continuar a ter este lado vanguardista, mas também apresentar vários tipos de teatro. Estive no Festival de Avignon. Num único dia havia 365 espetáculos. Eu assistia a vários. Quando estava a jantar, na rua, chegavam artistas, ocupavam um espaço, apresentavam um espetáculo e logo vinha outro. As salas estavam completamente cheias. Foi impressionante. Variadissimos tipos de teatro. Nessa altura reencontrei o Vasco Neves em Avignon. Telefonei-lhe a dizer: "Olha, estou aqui." E ele respondeu: "Eu também." Encontrámo-nos lá em Avignon. Acho que eles podiam ter aproveitado um bocadinho dessa experiência. Eles queriam uma coisa mais vanguardista, e está bem. Mas não deixar morrer o início. Devia haver espetáculos para todos os gostos, para todas as pessoas. Hoje em dia, quem vemos no festival? Ou as pessoas que vêm com os grupos, ou os intelectuais. Lembro-me de participar numa peça, num “teatrinho”, para a qual um ator do Bando me convidou. Era feita por pessoas daqui de Montemor, juntamente com o Bando. A sala estava cheia. Já estava a entrar em palco, quando olhei para a plateia vi colegas meus da Câmara de Montemor logo nas primeiras filas. (Risos) Isso mostra que é possível ir buscar espetáculos que atraiam mais pessoas.
Dori: Mais a comunidade...
Neiva: Mais a comunidade, sim. Não quer dizer que deixasse de ter este rumo mais vanguardista. Antigamente tínhamos um mês inteiro de espetáculos. Hoje são mais aos fins de semana e o festival está muito virado para Coimbra. A Figueira da Foz também chegou a receber programação. Mas está muito mais em Coimbra do que em Montemor. E o Citemor nasceu em Montemor, foi criado em Montemor, pelos residentes de Montemor.
Dori: Obrigado pela partilha.
Neiva: Eu é que quero agradecer por ter sido privilegiada de virem falar comigo sobre o Citemor.
Dori: Foi ótimo. Obrigado mais uma vez..
Neiva: De nada. Se for preciso mais alguma coisa...
Sim, sim.
Dori: E o Xavier recorda também que essa história tem muito a ver com a comunidade…
Neiva: No princípio havia mesmo essa ligação com a comunidade. As pessoas abriam as portas para receber os artistas. Ou tomavam conta dos filhos deles, ou deixavam-nos dormir em casa. Criavam-se laços de amizade muito grandes. A comunidade estava muito mais integrada.
Dori: A senhora acha que essa integração se perdeu?
Neiva: Perdeu. A partir do momento em que deixaram de existir as portas abertas e começaram a alugar espaços, muitas famílias perderam essa ligação. Depois também começaram a vir grupos diferentes, com outra maneira de fazer teatro.
Dori: Que espetáculo mais a marcou?
Neiva: Do Bando. Os Bichos, de Miguel Torga. Foi apresentado aqui no Castelo de Montemor. Eles dominaram o castelo todo. Havia um sapo que passava de um lado para o outro, víamos pessoas suspensas no ar. Conseguiram usar o castelo inteiro, não apenas um espacinho. Foi maravilhoso.
Dori: E como é hoje a sua relação com o Citemor?
Neiva: Olha, a partir de certa altura a minha filha teve um problema de saúde. Teve uma escoliose dorsolombar. Nesse ano tive de estar ao lado da Madalena. Ela foi operada e foi um processo muito doloroso, durante mais de dois anos, sobretudo psicologicamente. Foi aí que comecei a parar. De repente pensei: "Já não quero ir trabalhar. Quero só assistir."
Dori: O que espera para o futuro do festival? A senhora falou de um passado que se perdeu. Há coisas que gostaria que o festival recuperasse?
Neiva: O festival começou com um tipo de teatro menos ligado à performance… Mas do povo. Os artistas eram mais conhecidos. Havia espetáculos como A Guerra do Alecrim e Manjerona. Era um género mais clássico. Depois o festival foi-se transformando. Claro que, de vez em quando, apareciam espetáculos fora daquilo que era habitual. Eu acho que o festival poderia, a meu ver, continuar a ter este lado vanguardista, mas também apresentar vários tipos de teatro. Estive no Festival de Avignon. Num único dia havia 365 espetáculos. Eu assistia a vários. Quando estava a jantar, na rua, chegavam artistas, ocupavam um espaço, apresentavam um espetáculo e logo vinha outro. As salas estavam completamente cheias. Foi impressionante. Variadissimos tipos de teatro. Nessa altura reencontrei o Vasco Neves em Avignon. Telefonei-lhe a dizer: "Olha, estou aqui." E ele respondeu: "Eu também." Encontrámo-nos lá em Avignon. Acho que eles podiam ter aproveitado um bocadinho dessa experiência. Eles queriam uma coisa mais vanguardista, e está bem. Mas não deixar morrer o início. Devia haver espetáculos para todos os gostos, para todas as pessoas. Hoje em dia, quem vemos no festival? Ou as pessoas que vêm com os grupos, ou os intelectuais. Lembro-me de participar numa peça, num “teatrinho”, para a qual um ator do Bando me convidou. Era feita por pessoas daqui de Montemor, juntamente com o Bando. A sala estava cheia. Já estava a entrar em palco, quando olhei para a plateia vi colegas meus da Câmara de Montemor logo nas primeiras filas. (Risos) Isso mostra que é possível ir buscar espetáculos que atraiam mais pessoas.
Dori: Mais a comunidade...
Neiva: Mais a comunidade, sim. Não quer dizer que deixasse de ter este rumo mais vanguardista. Antigamente tínhamos um mês inteiro de espetáculos. Hoje são mais aos fins de semana e o festival está muito virado para Coimbra. A Figueira da Foz também chegou a receber programação. Mas está muito mais em Coimbra do que em Montemor. E o Citemor nasceu em Montemor, foi criado em Montemor, pelos residentes de Montemor.
Dori: Obrigado pela partilha.
Neiva: Eu é que quero agradecer por ter sido privilegiada de virem falar comigo sobre o Citemor.
Dori: Foi ótimo. Obrigado mais uma vez..
Neiva: De nada. Se for preciso mais alguma coisa...