A casa onde estamos a viver, em família, na edição deste ano do Citemor, fica numa das estradas principais da Carapinheira, aldeia quente e aconchegante da freguesia do município de Montemor-o-Velho, município do distrito de Coimbra. Ao andarmos por esta rua, sentimos o calor do vento que leva e traz os sons das festas populares que junta diferentes pessoas em torno de algo em comum: celebrar a vida e o tempo para o ócio nesses dias mais longos de sol e de sardinhadas.
É nesse clima que entramos neste festival, Citemor, que se confunde com a história desta aldeia e das vidas em volta. Entramos na casa de número 16, onde está inscrito "Vivenda Adélia Caiado". Adélia, que é a avó paterna do Xavi, uma mulher muito conhecida na aldeia pelos seus trabalhos ligados ao cuidado. Foi responsável por fazer nascer muitas vidas da Carapinheira e não só. Adélia era enfermeira, parteira, e uma pessoa por quem a comunidade tem um grande respeito e admiração.
Nesta casa de afeto que guarda o afeto da Vó, Xavi ativa a ARA – Associação Reflexo Azul sendo responsável por uma curadoria que junta pessoas de diferentes contextos em diálogo com este longo festival: o Citemor. A ARA tem fomentado aqui, na aldeia, longe dos principais pólos culturais de Portugal, um tempo-espaço de residência criativa para a reflexão e a escrita crítica.
A casa guarda memórias de um passado presente estampada nas fotografias que anunciam a linha geracional do Xavi. São pessoas trabalhadoras da zona rural que, tijolo por tijolo, ergueram essa casa que hoje acolhe uma associação que faz-se casa para outras pessoas. Neste espaço de acolhimento, mas também de celebração no qual diferentes pessoas se encontram para partilhar à volta da mesa, durante os jantares e os cafés da manhã, impressões e práticas artísticas em diálogo sempre com o Citemor. São artistas que estão no programa do festival.
E por aqui já passaram muitas pessoas. Esta é a minha segunda passagem nesta casa que cheira a festa, a comida boa, a limões e a limonadas, ao pólen que atrai pássaros, libélulas e faz crescer novas plantas. A polinização é um bom reflexo deste lugar, onde o solo é fértil para nascer tudo aquilo que ele permite.
E Xavi, esse mediador, cuidador, curador e guardião desta casa e das memórias que nela habitam, dá continuidade a um trabalho que também é ancestral: o trabalho de cuidar. Olhar para esse festival é também uma forma de cuidar dele, de cuidar da arte nessa comunidade, neste lugar e festival onde o Xavi cresceu enquanto pessoa, mas também enquanto artista acompanhado pela sua mãe, Neiva, que apoiava na produção do festival, acolhendo artistas em sua casa.
Foi nessa conversa informal que tivemos tempo e espaço, sim, porque este festival é também sobre temporalidades e sobre espacialidades. Sentamos nesta espreguiçadeira, à beira rio, de Montemor-o-Velho, vila vizinha da Carapinheira, para conversar sobre o Citemor e sobre a vida.
Nesta conversa vamos desfolhando memórias, enquanto as folhas começam também a cair sobre nós. O cheiro dos frutos vai anunciando as sementes para o por vir, e também para o presente. Nesse tempo-espaço, Xavi traz um desejo para um futuro que já se faz presente no Citemor. De que forma as velhas sementes podem também gerar sementes novas?
Decidimos performar sobre a conversa, depois de transcrita e decupada. Esta performatividade sobre o arquivo cria outro arquivo e provoca o ato de reflexão como um gesto contínuo. Sempre que refletimos sobre um arquivo vamos descobrindo e lendo outras camadas. Este gesto valoriza o processo e permite que o arquivo esteja sempre aberto a novas leituras e interpretações.
Abaixo, segue a conversa.
Fotografia Dori Nigro
Transcrição:
Dori: Então, Xavi, vamos começar pelo início do performingborders. Como surgiu a plataforma e as principais implicações e motivações ao longo do seu processo?
Xavi: Então, a plataforma surgiu em 2016. Foi iniciada pela Alessandra Cianetti, que é curadora, investigadora e produtora de artes performativas e artes visuais, especialmente ligada à live art.
Ela, sendo uma pessoa que vivia em Londres na altura, e ainda vive. 2016 foi um ano fulcral para pessoas em situação de migração ou com a situação de sua residência instável. Foi um ano duro, porque foi o ano em que aconteceu o Brexit. Até o Brexit acontecer, e também depois, houve um tumulto muito grande de movimentos e leis anti-imigração em Inglaterra, que resultaram no Brexit e também naquilo a que a Theresa May, ministra do Interior na altura, chamou de Hostile Environment.
Foram leis que foram implementadas por ela e pelo David Cameron, a todo nível do governo, em todos os departamentos. A intenção dessas leis era tornar a vida dos imigrantes tão hostil em Inglaterra que os imigrantes saíssem pelo seu próprio pé ou fossem deportados.
Neste cocktail de movimentos e de coisas a acontecerem, a Alessandra, sendo uma pessoa com cidadania italiana a viver em Inglaterra, na altura há cinco anos ou mais, decidiu começar uma série de entrevistas. Inicialmente, eram entrevistas mensais a artistas que trabalhassem com a questão das borders, mas borders no seu sentido mais lato. Não só borders nacionais; aliás, muito poucas vezes eram à volta das borders nacionais. Eram mais a volta das borders enquanto fronteiras.
Se bem que "fronteira" pode até ter um sentido mais positivo. Ter uma fronteira é algo que pode ir para além. Enquanto, em inglês, borders tem mais essa ideia de barreira.
Então, ela criou este conceito de performingborders: artistas performativos que navegam estas interseções entre performance, ação política e que tivessem passado por situações de migração, ou tivessem experiência migrante, e que integrassem nas suas práticas artísticas a intenção e a pesquisa sobre as borders do dia a dia. Portanto, barreiras institucionais, sociopolíticas, de etnia, de sexualidade, de género ou de status social.
Essa foi a intenção: dar voz e plataforma a artistas que, de outra maneira, provavelmente não a teriam. Porque também houve um apagamento muito forte das vozes migrantes nessa altura. Era cada vez mais forte. Então, a intenção era essa. Era abrir um bocado de espaço dentro do setor cultural, especialmente no setor da live art em Inglaterra, que é muito pequenino. Mas mesmo dentro desse setor pequenino, em que supostamente somos todos mais à esquerda ou mais, sei lá, a partida em contextos mais liberais, mais aberto, e afinal não era tanto assim.
Então, ela quis abrir esse espaço. Depois, em 2017, eu fui um dos artistas convidados para dar uma entrevista. Ela foi ter comigo a Brighton, onde eu vivia na altura, e fomos de canoa pelo mar afora. Pelo mar de Brighton. O mar estava super agitado, eu estava com uma ressaca enorme e passei o tempo a vomitar na canoa, com gaivotas à nossa volta (risos). Aquilo foi uma mess mesmo. Nem eu nem ela sabíamos lidar com a canoa e ela ainda tentava entrevistar-me ao mesmo tempo. Foi super giro.
Nesse dia formámos uma grande amizade. Passámos o dia todo juntos e foi muito bonito. Depois fomos conversando à medida que ela ia fazendo mais entrevistas. Depois, houve assim uma conversa sobre aquilo que ela pretendia fazer com essas entrevistas, para além de serem apenas uma mensal. Ela convidou-me então a fazer uma série focada nas borders, chamada queeringborders, sobre as questões mais queer. Fiz cinco entrevistas a artistas na Inglaterra.
E depois, a partir daí começámos a pensar: porque não levar estas conversas também para o espaço público, e não apenas para o digital?
E a partir daí, as coisas começaram a desenvolver-se e a crescer. Passámos de entrevistas mensais para entrevistas em público, encontros entre curadores e artistas, despontavam em investigações, práticas e teorias de uma forma muito mais ampla do que o formato de entrevista dava.
Começámos também a fazer comissões a artistas para criarem performances, seja ao vivo, seja para a câmera, que depois eram publicadas na plataforma. A plataforma tornou-se um site, uma espécie de biblioteca de investigação, um canal de performances digitais, de documentação e de investigação. Começamos a fazer publicações do e-journal, que é uma publicação bienal que, quando temos financiamento, fazemos (risos).
Também fazemos os cross borders, projetos multimédia em que artistas de diferentes partes do mundo se juntam para desenvolver novas investigações e novas propostas artísticas.
E, a partir daí, as coisas foram se entrelaçando e se expandindo. Hoje, dez anos depois, estamos aqui (risos).
Dori: Era isso que eu ia dizer. Dez anos depois estamos aqui, no contexto do Citemor, um dos festivais mais antigos da Europa, o mais antigo de Portugal. Também estamos aqui, de certa forma, numa fronteira: na beira de um rio, numa borda. Desta vez, numa entrevista mais confortável, não é? Ou seja, sem ressaca... pelo menos eu acho que não.
Xavi: Tem um bocadinho (risos).
Dori: (risos) Mas estamos aqui na beira desse rio, observando o espaço público e as pessoas a se divertirem. Queria também falar do teu percurso. És artista, curador, escritor, investigador... Como é viver nessas interseccionalidades?
Xavi: Olha, aconteceu um bocadinho por acaso. Eu sou uma pessoa que vai um bocadinho de encontro de coisas que me aparecem ou que me vão dando um certo interesse e pica. Trabalho muito por impulso, trabalho muito nesta perspectiva.
A questão do performingborders abriu-me um espaço digital. Eu não sou uma pessoa particularmente digital, sou bastante analógica (risos). Mas achei a proposta interessante porque dava-me para embrenhar-me dentro de uma comunidade da qual, de certa forma, já fazia parte. Também onde poderia desenvolver investigações sobre conceitos e áreas que sempre me interessaram muito. Eu sou um bocado geek nesse aspeto.
Acho que fazer um bocadinho de tudo: curadoria, produção, edição, investigação, publicação... Sou também fundraiser, acaba por ser um grande melting pot de experiências.
Tem muito a ver com a forma como funcionamos no performingborders. Somos uma companhia que se gere horizontalmente. Temos todas as mesmas responsabilidades, os mesmos direitos e pagamentos. Tentamos gerir tudo dessa forma. Isso dá-nos uma liberdade enorme, porque nos permite adaptar-nos e sermos muito maleáveis.
Ao mesmo tempo, também nos obriga a sair da nossa zona de conforto. Dá-nos, às vezes, uns pontapés no rabo e exige que façamos coisas que não estamos habituados a fazer.
E eu gosto disso.
O outro ponto é que há também uma questão de precariedade. Nós não temos um arcabouço financeiro para pagar uma equipa maior ou contratar outras pessoas para fazer partes do trabalho que, se calhar, devíamos delegar.
Se tivéssemos dinheiro, certamente o faríamos, porque acabamos por trabalhar muito mais do que aquilo para que somos pagos e, muitas vezes, mais do que aquilo a que nos propomos.
Ao longo dos anos, o performingborders acabou por se tornar uma plataforma muito reconhecida em Inglaterra, em alguns sítios da Europa e noutras zonas do mundo onde operamos. Tornou-se um espaço onde artistas que passaram por processos de migração, ou que ainda estão nesse processo, e que trabalham essas experiências na sua prática artística, podiam encontrar um lugar de confiança.
Um espaço onde se sentissem suficientemente confortáveis e com os recursos necessários para trabalhar livremente, sem exigências de um produto final, sem exigências de formatos fechados ou maneiras específicas de criar. Isso, para nós, sempre foi muito importante, sempre.
Para mim, todas estas iniciativas fazem sentido. Tenho apenas pena de continuarmos a trabalhar num contexto de grande precariedade, em que, muitas vezes, é muito difícil manter determinados projetos. Há muitos que acabam por não acontecer ou acontecem de forma muito limitada precisamente por causa disso.
Dori: E agora aqui pensando também na precariedade neste contexto português. Agora, estamos aqui neste festival que, apesar da sua longa história, também passou por muitos processos de precariedade e experimentação. Apesar da tua ligação antiga a este festival, o performingborders, nesta versão do Live Art Writers Network (LAWN)começa aqui em 2023, se não me engano, não é?
Xavi: Em 2022. Então, eu tenho uma ligação com Citemor praticamente desde que nasci. A minha mãe fazia parte da produção e eu andava sempre no colo dela para trás e pra frente com os artistas todos. Ela dava-me, na altura, quinhentos escudos e dizia: "Hoje vocês tomam conta dos artistas." Eu e a minha irmã andávamos super empenhados a fazer que faziamos produção, a acompanhar os artistas e a ajudá-los. Acabei por estar sempre ligado ao festival de várias maneiras. Era um sítio confortável para mim e de família.
Também era um espaço onde se encontravam muitas gentes de várias partes do mundo, onde linguagens tanto artísticas, como linguagens faladas e culturas se juntam, colaboraram, se misturaram uma com as outras e vão encontrando sua linguagem comum. Sempre cresci nesse ambiente e adorei isso.
Quando surgiu a ideia, não necessariamente do Live Art Writers Network, mas a ideia da possibilidade de a performingborders abrir espaço para fomentar pensamento crítico e escrita crítica, ela nasceu durante uma residência no Quénia, com os nossos colegas Untethered Magic.
Estivemos lá cerca de três semanas em 2022 em que percebemos que existia cada vez menos espaço, especialmente depois da pandemia, para publicar ou desenvolver práticas de escrita crítica e de pensamento crítico acerca de performance. A crítica estava cada vez mais reduzida a classificações, estrelinhas, a dizer se um espetáculo era bom ou mau, comercial ou não comercial.
Sentíamo-nos muito desconfortáveis com isso, porque antigamente, tanto em Inglaterra como em vários pontos do mundo existiam esses espaços. Por exemplo, em Inglaterra, onde estávamos baseados na altura, existiam imensas publicações dedicadas à crítica e ao pensamento sobre performance. Havia a Bellyflop Magazine, a Exeunt Magazine, a Dance Contemporary, The Guardian tinha uma secção vasta de cultura...
Tudo isso estava sendo reduzido ou apagado. Pensámos: Ok. Nós já temos uma plataforma digital dedicada à investigação e ao pensamento crítico. Por que não abrir também espaço para a escrita crítica?
Depois, eu e a Anahí, especialmente, viemos em residência ao Citemor, porque também existia aqui um legado muito importante. Entre o final dos anos 90 e cerca de 2014, a Cláudia Galhós e o Pablo Caruana, que são escritores e críticos da área do teatro e da dança, vinham para o festival durante todo o mês.
Acompanhavam os processos artísticos, e teorizaram a volta deles. Falavam com os artistas, provocavam os artistas e publicavam tudo no blogue do festival. Era uma coisa basicamente única no sector cultural cá em Portugal. Para mim foi muito influente, porque comecei a perceber que há espaço para um pensamento que não era necessariamente dramatúrgico, mas de pensamento sobre os processos artísticos enquanto estavam a acontecer. Havia uma relação diferente entre artistas, público e a pessoa que está no meio.
Achei esse espaço muito interessante. Havia aqui um legado muito grande e, sendo também um espaço que sinto como família, pareceu-nos o sítio ideal para começar. Então, viemos a convite do Vasco Neves, diretor do festival. Passámos aqui cerca de duas semanas a fazer um bocadinho aquilo que estamos agora a fazer: entrevistar artistas, assistir aos ensaios e acompanhar os processos.
No final, eu e a Anahí escrevemos um texto de levantamento sobre o Citemor e três textos críticos sobre três performances, muito aliado ao acompanhamento dos processos e às conversas que fomos tendo com os artistas. Foi aí que percebemos que existia realmente um espaço aberto interessante para experimentar novas formas de escrita crítica e de pensamento crítico. Um espaço que, nesse momento, praticamente não existia em mais lado nenhum. Pensámos que talvez nós tivéssemos a possibilidade de o criar.
E fizemos isso. Demorámos algum tempo a conseguir financiamento. Em 2024 voltámos, já contigo, Dori, e com o Paulo, que foram os primeiros artistas convidados do projeto.Foi uma residência de duas semanas aqui no Citemor, em que acompanhámos o festival em conjunto e procurámos construir uma resposta mais abrangente ao festival como um todo, e não apenas a espetáculos individuais.
Claro que também escrevemos sobre alguns trabalhos específicos, mas gostei muito dessa primeira abordagem. Os textos são vossos, mas senti que todo o processo foi feito em colaboração e em conversa permanente. Havia um acompanhamento vosso do festival, um acompanhamento meu do vosso trabalho e um acompanhamento de nós os três em relação ao próprio projeto.
Adão: Dos três?
Xavi: É. Eu, o pai Dori e o pai Paulo (risos).
Xavi: E achei que foi assim um bom início. Na altura também estávamos a trabalhar com o Fierce Festival, em Birmingham, na Inglaterra, e com os nossos colegas do Quênia, Untethered Magic, também para fazer coisas localmente deste género. Percebemos que poderia haver espaço, em cada contexto, adaptando-nos ao contexto de cada festival e a cada espaço de pesquisa.
Ou seja, não tem tudo de ser feito da mesma maneira em cada espaço, porque cada festival tem a sua linguagem, tem o seu modo de operação. Isso foi muito fundamental nessa altura. Em Birmingham foi muito diferente. O Fierce é um festival mais quase fast food. Acontecem mil coisas ao mesmo tempo, os artistas não estão em residência, vão lá, fazem o espetáculo e vão-se embora. Muitas vezes já são espetáculos que estão em digressão .Há assim uma coisa de "pá, pá, vá, vá, vá". Estás a correr de um lado para o outro da cidade entre espetáculos. É uma cidade enorme e vias para aí cinco espetáculos por dia.
Enquanto aqui o Citemor é tipo um espetáculo por noite, três dias por semana, durante um mês. Portanto, tens espaço e tempo para refletir, pensar, conhecer, que no outro não tens. Então isso deu-nos espaço para termos abordagens e linguagens diferentes. Achámos isso interessante e, a partir daí, continuámos por esse caminho.
Dori: É interessante porque a tua história é atravessada pela história do Citemor, não é? A tua infância, adolescência, de certa forma, com a tua mãe, na tua família. E, de repente, agora tens um trabalho aqui também de fazer nascer, falas dessa necessidade da crítica de arte, que é um problema. Eu vejo que, enfim, no contexto mundial das artes, não se tem a crítica construtiva de forma a sair dessa lógica do "gostei", "não gostei" ou das estrelinhas.
E vejo aqui também, nessa casa familiar, Associação Reflexo Azul, existe esse espaço também de fazer nascer essa crítica, num espaço que é familiar para ti, onde nasceste, um lugar confortável teu.
Xavi: Sim. Eu acho que é importante isso, sabes? Andas a falar muito de recursos e relações, de certa forma. Eu acho que isso impacta muito a maneira como conseguimos trabalhar ou como conseguimos absorver o trabalho que fazemos, o trabalho que estamos a ver fazer. E, para mim, essa relação de acompanhamento não fazia sentido se não fosse uma relação de proximidade também. Acho que é quando conseguimos fazer o trabalho mais expansivo e mais interessante, ou que seja um trabalho mais exigente na mesma, mas que dê um fruto diferente, um sabor diferente ao texto normal, que também é completamente válido.
Conseguimos fazer isso quando há essa relação de proximidade. Essa relação com a proximidade é feita aos poucos, devagar, com lentidão. É ir almoçar juntos, é acordar a meio da manhã e tomarmos o pequeno-almoço juntos, passarmos a manhã sem fazer nada, mas estarmos em companhia, por exemplo.
É irmos ao rio banhar-nos uns com os outros. É coabitarmos uma casa que, sim, tem um historial enorme e tem uma arquitetura e um design de interiores que é convidativo, que é confortável, que apela ao conforto.
Eu acho que isso tudo é importante.
E depois há o espaço do Citemor, que é um espaço também de relacionamento. Vocês falavam no vosso texto que perceberam que era um festival de afetos, que havia aqui uma rede de afetos. E é muito isso.
Montemor em si, onde o Citemor acontece, é uma vila — cidade, aliás, acho que Montemor já é cidade hoje em dia — pequenina, com poucos recursos, que chegou a ser era o terceiro município mais pobre do país depois da crise financeira de 2008.
Sempre houve muita necessidade de cooperação, de entreajuda entre os povos, e isso reflete-se muito no setor cultural aqui, onde há o Citemor. Há o CITEC e há pouco mais aqui em Montemor. Depois há outros festivais aqui à volta, ou espaços de residência, também algo precários. Toda a gente sabe fazer. Pode haver muito poucos recursos, mas as coisas vão acontecer e vão acontecendo com camaradas à volta.
Não é necessariamente uma coisa política, de esquerda ou de direita. Não tem nada a ver com isso. É uma questão comunitária. É quando habitamos esses espaços comunitários de ajuda que as pessoas acabam por se sentir mais confortáveis para poderem expandir a sua pesquisa, trabalharem à sua vontade e existirem sem pressão. Claro que haverá sempre contrapontos ou coisas que acontecem que não prevíamos, mas acho que abrir esse espaço de convívio, esse espaço familiar ou de gerar uma familiaridade, é fundamental para este processo.
Dori: E tem uma coisa também muito interessante. A dada altura tu falas dessa relação de tempo e espaço que este festival promove e que acaba por confrontar essa ideia de "fast food" dos festivais. Nós estamos aqui, neste momento, sentados numa espreguiçadeira, a conversar, tendo esse tempo. Talvez aqui esteja também uma resposta para o tempo que o festival vem durando. Não há essas fronteiras rígidas e institucionais que dizem: "Agora é hora disto, agora é hora daquilo."
De certa forma, o festival dialoga muito com este tempo da Carapinheira, de Montemor-o-Velho, este tempo que estamos a viver aqui, que é um tempo que também dá tempo para o descanso e para o ócio criativo.
Xavi: Exatamente. Isso é uma característica do Citemor que tem muito a ver com a maneira como o Vasco e o Armando trabalham e fomentaram aqui as relações, e a maneira como se navegam essas relações. Também tem a ver com a relação com as nossas condições materiais e condições laborais. Há uma confortabilidade que vem de haver esse espaço e essa intenção de fazer coisas extremamente bem feitas, mas também de maneira humana, e não de forma super institucional.
Aliás, o Citemor recusa-se muito a trabalhar com certas estruturas ou certas infraestruturas que têm linguagens completamente diferentes, porque isso criaria tensões que levariam o festival para outro lado completamente diferente.
Muitos artistas vêm de vários pontos do mundo ao Citemor, mesmo quando o festival não tem dinheiro para lhes pagar. Não numa lógica de "venham pela visibilidade", mas porque aqui encontram um espaço de abertura, de apoio e de criação que não encontram em mais lado nenhum. Posso dizer isto sem qualquer egocentrismo. Sempre foi assim.
Há muitos artistas que vêm aqui mesmo sem trabalhar cá, apenas para ver o festival.
Acho que isso ficou muito demonstrado pela relação de afetos e pela relação de amor que existe entre o festival e os artistas com quem colabora ao longo dos anos.
Quando, por exemplo, o festival perdeu praticamente todos os recursos depois da crise económica de 2008 — perdeu financiamento da Câmara, perdeu financiamento europeu, perdeu financiamento da DGArtes — ficou praticamente sem nada. Contudo, a povoação juntou-se e os artistas disseram: "Não. Fazemos o festival na mesma e o dinheiro da bilheteira fica para o festival." Isso é uma prova de amor e de carinho.
De repente, tens uma comunidade com quem já estás embrenhado há muito tempo, da qual fazes parte, e essa comunidade levanta-te do chão. Acho isso uma história lindíssima. O festival não se teria conseguido manter como se mantém se não tivesse existido essa ação. Depois foi-se levantando aos poucos, ano a ano. Primeiro com financiamentos projeto a projeto, depois festival a festival. Começou com um fim de semana, depois um bocadinho mais, depois outro bocadinho mais, até voltar às quatro semanas. Ainda hoje existe muita precariedade. As pessoas não são bem pagas. Acho que isso é seguro dizer.
Mas estamos aqui também por amor à camisola e porque temos um espaço onde nos sentimos confortáveis, em comunidade. Parece muito bonito dizer isto assim em voz alta, mas é a realidade do Citemor. Acho eu (risos).
Dori: E é uma coisa bonita também. Eu e o Paulo, quando escrevemos, trouxemos um pouco dessa reflexão de como o festival surge concomitantemente com a liberdade portuguesa, com a Revolução de Abril. Há muitos desafios que Portugal ainda tem por viver — a descolonização, o desenvolvimento, a difusão — mas há aqui um "D" que vejo funcionar de uma forma muito interessante enquanto resistência: a descentralização das artes. Ou seja, um festival que acontece fora desses eixos hegemónicos, Lisboa e Porto. Talvez seja também isso que o faz resistir e ser o que é hoje. E essa relação com a comunidade, com a tua mãe a acolher artistas dentro de casa...
Xavi: Sim, sim. Tinhamos para um apartamentozinho com dois quartos e às vezes chegávamos a ter quinze artistas a dormir uns em cima dos outros.
Era assim (risos). Eu acho que essa questão da descentralização e desses vários "D" de que estás a falar também é uma reflexão sobre como se vive um bocadinho na Península Ibérica. Há centros de produção e de foco — Lisboa, Porto, Coimbra — considerados áreas de desenvolvimento e de maior fomentação cultural. Mas depois tens vilas e aldeias com potenciais incríveis, muitas delas abandonadas ou com espaços onde nada acontece, quando podia acontecer tanta coisa interessante.
O Citemor acaba por preencher aqui um meio-termo. Há artistas que trabalham em Lisboa e no Porto, mas também artistas que estão a começar. Há um encontro de várias linguagens, várias experiências e vários níveis de experiência que só é possível porque esta vila tem abertura e espaço para isso. Agora existe também o trabalho com o TAGV e com o Teatro da Cerca, em Coimbra, que são espaços mais institucionalizados, mas o festival continua a ter liberdade para fazer aquilo que quer. Há uma conexão entre quem trabalha dentro dos centros e quem trabalha fora deles. Isso acaba por criar um espaço onde os artistas podem vir a falhar, o que é muito raro. Acho isso extremamente interessante.
Podem colaborar com pessoas que não têm nada a ver com arte.
Lembro-me da primeira produção em que estive envolvido, com o Nilo Gallego. Foi no rio, em jangadas feitas com materiais encontrados na rua. Os instrumentos eram todos feitos com materiais recolhidos no lixo e pela vila a fora. Chamámos o pessoal da canoagem para participar no espetáculo. Entravam pelo rio durante a apresentação. Depois aparecia também a filarmónica da vila.
É um espaço colaborativo nesse sentido. E, volto a dizer, é um espaço de falhanço, onde não existe uma imposição de um espetáculo final. Muitos artistas estão aqui a construir espetáculos, ou mesmo que já existam apresentações anteriores, continuam aqui a experimentar e a desenvolver o trabalho.
O público também sabe que pode não estar a ver um espetáculo formalmente acabado. Isso é muito bom porque dá oportunidade aos artistas para experimentarem, falharem e perceberem: "Ok, não era isto."
Acho que falhar é uma coisa fundamental no nosso processo enquanto artistas e muitas vezes não temos essa possibilidade porque nos é imposta uma finalidade, uma estreia. Aqui não. A Cláudia Galhós fala muito disso - ela foi também fundamental no início deste projeto do Live Art Writers Network. Fala muito da importância de o Citemor manter este espaço de experimentação. Este projeto é uma reflexão disso.
Senão, o Citemor deixava de fazer sentido e seria apenas mais um festival.
Dori: Tens um passado ligado ao festival e agora um presente muito concreto nessa colaboração. Por fim, que futuro esperas para o Citemor?
Xavi: (risos) Espero que o festival continue com esta relação transcomunitária, não só com a comunidade local, mas também com a comunidade artística que continua a colaborar, a performar novas relações e a trazer novas linguagens. Que continue a receber artistas que querem experimentar e fazer crescer os seus próprios processos artísticos.
E que continuem a ter a possibilidade de falhar. Gostava também que tivesse mais recursos, para trazer artistas com melhores condições e poder expandir as relações para além da União Europeia e da Península Ibérica, que é onde hoje opera mais, sem deixar de continuar a apoiar os artistas que vivem cá. Espero que continue a trazer linguagens diferentes, artistas em diferentes momentos dos seus percursos.
Que continue a fazer isso, mas de forma mais expandida.
Dori: Obrigado.
Xavi: Obrigado eu.