por Dori Nigro
A conversa com Bruno Ambrósio parte do tema disparador para o espetáculo A.P.S.A. e Filho, Lda., apresentado no Teatro Esther de Castro, em Montemor-o-Velho, no contexto da 49.ª edição do Citemor. Ao entrar em cena, deparamo-nos com uma cenografia que reinventa o talho familiar do Bruno e que se vai revelando em detalhes, nos fios da memória, como quem participa de um almoço em família.
O talho torna-se a metáfora para compreendermos como funciona esta grande máquina que mói vidas e que é retroalimentada por um sistema que depende da exploração para a sua subsistência. O machismo que Bruno problematiza, a partir da sua forma de fazer teatro, é o mesmo que é encenado no palco quotidiano das nossas casas, patrocinado pela política e, muitas vezes, abençoado pela fé.
Bruno fala do teatro como quem regressa à sua própria infância, mas também à infância da sua filha. Sim, fazer teatro é uma forma de ressuscitar a infância que há em nós: a imaginação ingénua e radical, capaz de mover as coisas do lugar e de desmontar as engrenagens de um sistema velho e adoecido.
É preciso brincar. Retomar a ludicidade adormecida para enfrentar a realidade crua. De repente, o palco transforma-se na grande brincadeira de uma criança curiosa que procurava, e ainda procura, o seu lugar no mundo. Um mundo sem rótulos, onde ser homem é isto e ser mulher é aquilo. Na verdade, é isso que sempre procuramos: novas possibilidades de experimentar outras formas de ser e de existir. E o teatro torna-se um pretexto para o fazer, porque é nele que as fronteiras se dilatam.
O teatro surge na vida de Bruno, ainda muito cedo, como esta possibilidade de prolongar o faz de conta infantil pela vida adulta, não como um gesto de nostalgia daquilo que passou, mas como um exercício constante de fabulação e de libertação.
Recuperar o faz de conta é uma dose diária para escapar à solidão e à tristeza que nos prendem a uma vida de utilidades, burocracias e desempenhos. Precisamente porque a criança é livre e não precisa de ter plena consciência da sua liberdade. Ela simplesmente é. Enquanto somos educados a abandonar a infância, porque é preciso crescer e deixar de ser criança, a arte ensina-nos a fazer o caminho inverso: reinventar uma forma de existir sem medo, aguçar a criatividade e não recear as perguntas, nem as respostas, por mais ingênuas que possam parecer.
É precisamente isto que nos lembra Clarice Lispector quando escreve, em A Descoberta do Mundo: "As vantagens de ser bobo é que se fica imune às espertezas e vence-se sem perceber que venceu." Às vezes é preciso aceitar esse lugar do "bobo" para escapar às amarras rígidas que insistem em prender-nos. O bobo, justamente por não obedecer às lógicas da utilidade e da produtividade, abre espaço para imaginar o impossível.
O exercício de (des)construção presente em A.P.S.A. e Filho, Lda. confunde-se com a própria trajetória de Bruno. Não se trata apenas de um espetáculo autobiográfico. É um gesto de coragem que expõe vulnerabilidades e toca numa doença que atravessa toda a sociedade: o machismo.
O espetáculo nasce do confronto entre o corpo que lhe ensinaram a habitar e o corpo que, afinal, sempre lhe pertenceu e que agora escolhe reinventar. É preciso reconhecer a sensibilidade que existe em nós e da qual, tantas vezes por medo, nos afastamos ou aprendemos a negar.
Crescido nesta linha ténue entre o teatro e o talho, Bruno coloca frente a frente dois mundos aparentemente inconciliáveis, mas que, à sua maneira, também reproduzem estereótipos, relações de poder e diferentes formas de violência. Talvez, no talho, essas estruturas apareçam de forma mais evidente. No teatro, por vezes, a fantasia do faz de conta pode entorpecer a nossa capacidade crítica de olhar para as coisas para além das aparências, do estatuto ou da proteção conferida pelas instituições.
Se, por um lado, encontramos um espaço de criação e imaginação que, durante muito tempo, também apagou outras formas de criar e difundiu um imaginário dominante, por outro encontramos um universo marcado pela virilidade, pela dureza e pela repetição de modelos herdados de geração em geração. É nesse entremeio que emerge a pergunta que atravessa toda a entrevista: o que significa tornar-se homem?
É neste exercício que compreendemos a masculinidade como uma performance aprendida, mas também como algo que pode ser desaprendido. O palco transforma-se, então, num espaço onde o faz de conta recupera a sua potência política, permitindo imaginar outras formas possíveis de ser homem e, sobretudo, outras formas possíveis de ser.
Num contexto historicamente dominado por homens, torna-se cada vez mais necessário criar espaços abertos à diversidade. Não existe, portanto, um espaço neutro, porque as opressões são reproduzidas, muitas vezes, até por grupos historicamente oprimidos. Talvez a maior lição desta conversa seja a de que há sempre tempo para reconhecer as nossas falhas. E reconhecer é já uma forma de transformação, uma maneira de colocar em causa os privilégios que herdámos e que continuamos, consciente ou inconscientemente, a reproduzir.
Abaixo, a nossa conversa:
Dori: Fala-me um pouco de ti e também do teu percurso.
Bruno: Quando era mais novo, a partir dos nove, dez anos, havia aquela coisa de se poder escolher se íamos para o desporto. E havia uma possibilidade aqui no Montijo, onde eu cresci, que não existia, que era o teatro. Portanto, eu fui jogar futebol, fui para o basquete, fiz desporto em geral. Assim, culturalmente e artisticamente, eu tinha uma certa sede de curiosidade, na verdade, de fazer teatro. Eu achava piada. Gostava, na escola, quando tentávamos encenar algumas coisinhas, de decorar texto. Ou seja, sempre houve, da minha parte, uma curiosidade gigante, um gosto particular em decorar poesia e dizê-la. E não havia aqui na zona grupos de teatro. Havia em Lisboa, na outra margem do rio. Fui fazer a audição, fiquei, e foi a partir daí, com o grupo de teatro infantil Animarte, que comecei a trabalhar em teatro. Trabalhar, não... a curtir o teatro. A partir daí, tinha dez anos, acho eu. Depois, com o tempo, foi mudando a relação com o teatro. Fui crescendo e decidi estudar, já no décimo ano, para a Escola de Teatro de Cascais. Lidei com coisas muito boas e com coisas muito conservadoras dentro do teatro, coisas que, neste momento, eu nem suporto nem adoro. Mas foi bom passar por elas. Foi uma escola interessante a esse nível.
Depois estive no Conservatório. Ia trabalhando com alguns encenadores. Tive também a minha companhia, As Crianças Loucas, que criei em conjunto com outros colegas. E a minha relação com o teatro foi-se estabelecendo de outra maneira. Até este momento, na verdade, já é muito, muito distante daquilo que era há um ano, há dois anos. Sei lá... A minha ligação com o teatro é cada vez menos tradicional, acho eu, apesar de utilizar todos os mecanismos daquilo que era tradicional no teatro: o texto, dois atores ou um ator em palco, o palco como veículo para transmitir informação, etc.
Ao longo deste processo, também tive de trabalhar no talho do meu pai. Ele tinha um talho. Sempre teve. Portanto, foi sempre assim um bocado entre: "Ok, agora dedico-me ao teatro, agora estou no talho." Até que decidi desistir do talho, porque não era aquilo que eu queria.
E pronto. Depois, até acho que o espetáculo parte um bocado disso, dessa forma de evitar o mundo que conheci no talho, que conheci nos homens, porque eram essencialmente homens que trabalhavam no talho; só trabalhava uma mulher, que era quem estava na caixa. E essa relação quase de um certo ódio perante certas formas de masculinidade. Ou seja, vieram-me passadas. Era repugnante, já num certo ponto. Era: "Ok, eu consigo ver isso. Estou-me a rir porque acho que tenho de rir, mas isto já não tem piada. Isto não tem piada para mim. Eu não quero compactuar com isto. Não quero trabalhar aqui. E acho que nunca serei capaz de ser homem como o meu pai e as pessoas à minha volta foram."
E o espetáculo nasce um pouco daí, da minha dúvida: sou eu que estou a falhar? Acho que, das duas partes, havia erros. Da minha parte, há um erro gigante, que é o facto de não conseguir recuperar aquilo. Não queria. E o espetáculo nasce daí, desse confronto com o masculino, a virilidade. O que é isso de ser viril? O que é isso de ser macho latino, como o meu pai sempre tentou passar, essa ideia de macho latino, um homem que é um verdadeiro homem?
Dori: Tem uma coisa interessante que acaba por se relacionar também com a ideia da transgressão e de um certo rompimento desses cânones, não é? Tanto do masculino como do cânone do teatro. A dada altura, tu falas que foi preciso passar por todo esse processo conservador do teatro para construir uma outra forma de fazer teatro. E é interessante porque, nesta cenografia, vemos elementos dessa tradição do teatro, mas que são rompidos. De repente, este talho vira um consultório médico...
Bruno: É o médico. Ou seja, interessa-me muito, no teatro, a ideia de que, quando eu era pequenino, gostava de brincar, por exemplo, às mães e aos pais, aos empregos, ao irmão e à irmã, ao tio, ao jantar de Natal. Gostava de brincar do género: "Agora tu fazes o tio, eu faço o pai, tu fazes o rapaz que chegou", e não sei quê. E essa brincadeira de crianças sempre me interessou.
E, no fundo, da primeira vez que senti a necessidade de escrever teatro, de escrever para teatro, a ideia que me vinha sempre à cabeça era que nós crescemos e continuamos essa brincadeira do faz de conta, mas com mais adereços, com mais verdade. No fundo, acho que era isso que eu tentava fazer ali. É como se fossem dois ou três jovens que quisessem fazer essa brincadeira de adultos e em que, às vezes, a brincadeira se perdia e outras vezes se ganhava. Como levar essa brincadeira cada vez mais a sério. Mas parte daí: de utilizar o teatro como uma continuação adulta da brincadeira que já fazia em criança.
Dori: E isto é muito interessante. Começámos numa conversa, que não foi gravada, a falar das nossas crianças, que são uma continuidade da infância em nós. Tu, pai de uma menina; eu, pai de um menino. E, de repente, como o fazer teatro é também atravessado por isso, por essa relação com o imaginário infantil. Isso é muito bonito.
Essa fase, em muitos de nós, foi castrada. Em mim foi castrada. A forma como imaginamos o mundo, como criamos um lugar onde não há barreiras entre homem e mulher, entre masculino e feminino. O Adão, meu filho, está numa fase em que essa linha é muito ténue. E, de repente, o teatro pode ser uma forma, como tu dizes, de trazer isso novamente. De colocar isso em cena e quebrar as barreiras que são criadas para dividir, para separar.
Bruno: Exato. Eu, em criança, lembro-me perfeitamente de que o meu irmão jogava futebol e eu ia ver os jogos. Mas eu ficava com as mães das pessoas que jogavam futebol. Porque os pais das crianças que estavam a jogar, ao nível das energias, eram uma coisa que me irritava muito. Aquela forma de estar ali, o tipo de conversas… Sempre tive mais amigas do que amigos, na verdade. Isso não quer dizer que eu goste mais de mulheres do que de homens. Não é isso. Há um certo tipo de disponibilidade, acho eu, numa mulher, que encontro menos frequentemente num homem. Pronto, também estou a generalizar e isso é sempre muito difícil. Mas encontro mais facilmente numa mulher uma disponibilidade para um encontro bonito do que propriamente encontrei em muitos amigos. E só comecei a encontrar mais essa masculinidade a partir dos vinte anos. E acho que foi um pouco forçada. Tornei-me uma pessoa mais bruta, queria afirmar a minha virilidade e, claramente, eu estava trocado. Estava enganado. Não cabia em mim. Não era para mim. Acho que, no fundo, é um pouco isso. E com a minha filha é um pouco esse cuidado de perceber, pelo menos estando atentos, como não impor certos problemas. É muito difícil. Muito difícil. Porque, mesmo que já estejamos longe deles, eles continuam enraizados. Nasceram connosco. Toda a sociedade está baseada nesses problemas. Então, fugir disso é mesmo difícil. Tenho-me deparado com essa dificuldade enquanto pai de uma filha, de uma menina. Eu achava que ia ter um filho rapaz. Depois foi uma felicidade saber que era uma menina, como teria sido uma felicidade se fosse um menino. Mas o facto de ser um menino ou uma menina altera. E, mesmo que eu não queira, altera. Mesmo que tu penses: "São seres humanos." Dividir constantemente entre macho e fêmea... Quer dizer, isso já é uma coisa demasiado animal. A razão e a racionalidade são aquilo a que nós chegámos, mas, mesmo assim, é difícil fugir.
Dori: Eu tive um irmão que nasceu temporão. Eu tinha catorze anos quando ele nasceu e lembro-me de desejar que o meu irmão fosse uma menina. E, de repente, agora, quando surgiu a possibilidade de ser pai, tive medo que fosse uma menina. Talvez por ter tido, na minha família, mais irmãos. Pensei: "Como educar uma menina?" Achei que seria diferente, mas, no fundo, somos nós que criamos estes estereótipos. No fundo, é uma criança. Mesmo essa coisa de menino e menina somos nós que projetamos. Na cabeça da criança, essa linha de género, de sexualidade, nem existe.
Bruno: É muito estranho porque, ainda há pouco tempo, estava a navegar nas redes sociais, no Instagram, e apareceu uma daquelas publicações muito generalistas sobre ser pai ou mãe. Ou então: "Pai de rapazes é isto." E apareciam uma série de vídeos de rapazes a atirarem-se contra a parede, a brincar com dinossauros, a fazer sons de dinossauros. Uma brincadeira mais corporal. Há uma agressividade que não é a agressividade que nós conhecemos enquanto adultos. É uma vontade de lutar, de experimentar o corpo, que dizem não existir nas raparigas. Mas a minha filha é exatamente isso. Pela lógica, a minha filha seria um rapaz, porque adora saltar, correr, fazer todas aquelas coisas que geralmente são associadas aos rapazes.
Dori: O meu filho é uma criança muito sensível. Gosta de brincar com bonecas, do faz de conta. E, numa visão de uma masculinidade tóxica, isto não é normal. São gostos que, numa educação machista, deveriam ser castrados. Isto faz-me lembrar um filme, Bruno, Ma vie en rose (A Minha Vida Cor-de-Rosa), um filme francês que narra a história de um menino que, de repente, se interessa pelas roupas da mãe. E isso gera uma grande confusão na vila onde a criança vive, na escola, no espaço social, por causa deste machismo que tu problematizas no teu trabalho. Esta criança é julgada tanto pelos homens como pelas mulheres por simplesmente vestir roupas que não são lidas como sendo para ela. Ou seja, este machismo é tanto fomentado pelos homens como também reproduzido pelas mulheres. E, no espetáculo, falas precisamente da relação de um filho com o seu pai e com a sua mãe.
Bruno: Sim. Não são só os homens que são machistas. Há mulheres muito machistas. Agora que estou mais atento, tenho conhecido muitas mulheres que defendem que o lugar do pai é este e o lugar da mãe é aquele. Eu não concordo. Não vejo isso. E sinto que o meu próprio pai, com quem cresci, hoje está muito mais maduro. Ele ainda não viu o espetáculo. Mas ontem esteve cá em casa e estivemos a conversar. Perguntou-me: "Então, como é que é o espetáculo?" Expliquei-lhe, de forma resumida, sobre o que era o espetáculo e ele respondeu: "Eu gostava de ver isso." Eu cresci muito com o meu pai a dizer: "O teu avô era assim. O teu avô fazia isto. O teu avô fazia aquilo." E eu sentia-me sempre longe desse modelo. Pensava: "Estou a falhar. Eu não consigo. Não consigo ser este homem." Sou mais sensível do que isso. Na altura nem sabia dar nome a essa sensibilidade. Só sabia que não fazia parte daquele modelo de macho alfa, latino. Não cabia em mim. Forcei-me a caber nesse papel e acho que até consegui durante muitos anos, até aos vinte e poucos. Depois surgiu o diagnóstico da esclerose múltipla. E isso colocou muita coisa em causa na minha vida. Sendo uma doença autodegenerativa, acontece dentro de mim e é ligeiramente invisível para quem olha de fora. Eu sinto-a, mas ela não se vê logo. Isso fez-me pensar muito sobre mim. Acho que o espetáculo passa muito por isso. Pela expectativa que criei sobre mim próprio. Parece que, ao falhar perante essa expectativa, o corpo começa a atacar-se a si próprio, porque a cabeça e o corpo estão juntos. Não estão desligados. Tive de ponderar tudo isso. Tive de perceber o que é que bastava. Já chegava para mim. Pela minha saúde, eu não podia continuar a alimentar esse estigma do homem forte, do macho. Na verdade, até perder a virgindade foi uma experiência horrível para mim. Sempre me senti em falha. Até o prazer sexual com outras mulheres, identificando-me como heterossexual, e não tendo qualquer problema em dizê-lo, foi algo sobre o qual pensei muito. Há dias estávamos a falar disso, eu, a Sofi e a Matilde. Discutíamos até que ponto uma pessoa pode afirmar o que é ou não é antes de experimentar, antes de saber. Aquilo que eu digo é: até hoje identifico-me como heterossexual e nunca senti atração sexual por homens. Se alguma vez senti alguma coisa, nunca foi sexual, pelo menos que eu tenha consciência. Mas não posso colocar em mim próprio certos travões, porque toda a vida vivi dentro dessa lógica de que isto é isto e aquilo é aquilo. O facto de eu ter sido pai, para o meu pai, significa automaticamente que eu já sou um homem. Para mim isso é uma ideia muito estranha. Já não me cabia mais dentro dessas categorias. Não sabia como falar disto. Pensei que talvez a maneira mais fácil de chegar ao universal fosse através do pessoal.
Dori: O feminismo traz este lema: "O pessoal é político." E tudo é sobre política. Este movimento tem sido recorrente nas artes performativas. Os artistas, ao olharem para o micro, podem olhar o macro em simultâneo. As histórias que trazes em cena e que ressoam, de certa forma, no espectador. Nas nossas masculinidades tóxicas, na forma como as nossas existências foram e são marcadas pelo machismo e o quanto dele ainda carregamos em nós. Enquanto pai, reproduzo modelos do meu pai, que ele já trazia do meu avô. Eu tento retirar isso, mas há coisas tão enraizadas que vejo que a forma de romper é também reconhecer, não é? Reconhecer a falha, reconhecer que falhamos enquanto sociedade.
Bruno: Sim. E acho que ser pai traz à tona essas questões de uma maneira muito mais exacerbada, porque já é uma vida que está à tua frente, que tu estás a ver crescer, e à qual não queres transmitir o tipo de sensações pelas quais também passaste. Queres passar o que foi bom, mas não queres passar aquilo que te fez mal. E, às vezes, sem querer, estás precisamente a fazê-lo. O melhor é assumir que falhamos. Que falhamos como pais. Mas isso já é um bom princípio para melhorarmos. Fingir que não falhamos acho que é um péssimo lugar para se estar. Acho que não há perfeição. Procurá-la é importante, mas é uma procura constante. Nunca vai terminar.
Dori: Há um movimento no espetáculo que fala precisamente dessa relação entre afeto e violência. A dramaturgia traz sempre esse diálogo que mistura afeto e violência. É um amor violento. O exemplo da mota ilustra bem isso: demonstra o afeto, mas, ao mesmo tempo, revela a violência. O sentimento transforma-se numa fúria que ultrapassa a própria raiva.
Bruno: Exato. Foi uma coisa que achei importante trazer à tona no meu percurso pessoal. Eu não estou a dizer que o meu pai era simplesmente mau. Não é por aí que quero ir. Só estou a dizer: isto aconteceu. E esta era a forma que ele achava correta para me explicar aquilo que eu deveria ser. Ou seja, oferece-me uma mota, que é um presente, mas depois a mota transforma-se num castigo. O presente torna-se um castigo porque eu falhei numa determinada coisa.
Dori: É uma masculinidade frágil também, não é? E isso vê-se noutro momento do espetáculo, quando surge essa libertação do corpo através da dança e, de repente, o filho grita: "Quero ser gay." Quando eu quis ser gay, fui expulso de casa pelo meu pai porque queria ser feliz.
Bruno: Nós estávamos a ver televisão. Era uma das primeiras marchas LGBT em Portugal. Na altura chamava-se mesmo Marcha Gay. Ainda não existia este conhecimento mais alargado sobre toda a diversidade. Lembro-me perfeitamente de estar a dar na televisão. Tocava a música do Mister Gay. Via-se um grupo enorme de pessoas felizes, a cantar, a divertir-se. O que é que aquilo tinha de mal? Uma criança olha para aquilo e pensa: "Olha como aquelas pessoas estão felizes. Eu quero ser gay." Qual é o problema? Eu nem sabia o que era ser gay. Se estivesse a passar uma carrinha cheia de adeptos do Sporting a festejar uma vitória, estava tudo bem. Mas ver um grupo de pessoas a celebrar a sua liberdade já era um problema. Quando era pequeno lembro-me do meu pai dizer que não sabia se conseguiria lidar com o facto de ter um filho homossexual.
Dori: Este é um problema. Esta masculinidade tóxica rege muito as nossas vivências. Conversei com uma pessoa depois de ver o teu espetáculo e ela dizia que era importante esta crítica à masculinidade ser feita também por homens, sobretudo homens que se identificam como heterossexuais. O feminismo já tem feito esse trabalho há décadas, não apenas no teatro, mas também na literatura, na filosofia, nas artes. É importante, e corajoso, nós, homens, darmos a cara e falarmos da masculinidade, uma vez que somos também os principais responsáveis pela sua reprodução.
Bruno: Concordo em absoluto. Lembro-me de uma conversa com um amigo meu sobre aquelas saias pretas compridas que se usam muitas vezes no teatro e na dança. Na escola chamávamos-lhe "saia de couro". Quando estive em Londres comecei a achar cada vez mais interessante esta ideia de podermos escolher aquilo que vestimos. Como se fosse uma espécie de role play. Eu escolho aquilo que visto e isso também me define. Aceito perfeitamente que a roupa me define, mas então quero poder escolher várias formas de ser. Quero vestir aquilo que me apetecer, porque, no fundo, isso é completamente indiferente. Eu vivo dentro de mim próprio. Não interessa se tenho meias cor-de-rosa, cuecas cor-de-rosa, uma saia, um blusão ou umas calças de ganga. Lembro-me de dizer a esse amigo que gostava de usar essa saia comprida com umas Doc Martens e um blusão de cabedal. Ele respondeu-me:
— Tens mesmo de ser tu a fazer isso!
Para mim começou aí uma libertação. Depois comecei a trabalhar no talho com determinadas camisas, determinadas meias, determinadas roupas, e era constantemente alvo de gozo. Até me dava algum prazer brincar com essas normas. Era a forma mais justa que encontrava para me revoltar. Lembro-me de um dia estar na caixa, com o cabelo comprido. Um senhor viu-me apenas de costas, pensou que eu era uma mulher e ofereceu-me uma rosa. Quando percebeu que eu era um rapaz, ficou completamente envergonhado.
Dori: É tão bonito um homem despir-se de todas as suas certezas e oferecer uma flor a outro homem. Ou, como diz Gilberto Gil, "é tão bonito o homem aprender a beijar outro homem como beija seu pai."
Bruno: Quando recebi aquela rosa achei que era um sinal bonito. Pensei: "Esta terra retrógrada está finalmente a mudar." Mas, de repente, o homem percebeu que eu era um rapaz, ficou escandalizado e começou a tratar-me mal. Eu respondi-lhe:
— Companheiro, acho que o problema aqui é consigo, não comigo.
Identifico-me com o cabelo comprido, com as unhas pintadas, com aquilo que eu quiser.vQuem está em conflito é o senhor, não sou eu. Foi a partir daí que começou a surgir, de forma mais clara, esta vontade de falar sobre tudo isto. No outro dia, depois do espetáculo, ficámos à conversa com o pessoal do Citemor. Perguntei:
— Mas para onde é que isto vai?
As pessoas respondiam-me que isto não é uma questão de modas. Cada pessoa faz aquilo de que gosta e explora o seu caminho. Mas eu continuo a perguntar-me: para onde é que estamos a caminhar? As palavras já não me provocam o impacto que provocavam antes. Já não chegam para chocar perante as imagens de genocídio que vemos todos os dias. Sinto que preciso de algum tempo para pensar no que quero fazer a seguir. Há muitas coisas que continuam a despertar em mim uma enorme curiosidade. Mas acho sinceramente que a única coisa que pode salvar o mundo é a empatia.
Dori: E a fé.
Bruno: Também.
No fundo, gostava de acreditar que sim. Parece-me que as coisas vão piorar antes de começarem a melhorar. É essa a sensação que tenho. Vejo os meus amigos, pessoas com quem cresci, e sinto-os muito azedos. Muito fechados. E, no meio disto tudo, continuo a acreditar que a empatia talvez seja a única forma de salvar o mundo desta barbárie.
Dori: Então ficamos com a empatia e a fé. Depois encontraremos outras palavras.
Bruno: Exatamente.
Dori: Obrigado.
Bruno: Obrigado eu.