Sab 1 Ago 22h30
Rosa Romero
El discurso
Igreja da Madalena - Montemor-o-Velho
Sab 1 Ago 22h30
Igreja da Madalena - Montemor-o-Velho
© GIL BARRADAS
Na minha família, sempre foram valorizadas habilidades como ter compasso, cantar ou compreender o cante flamenco, mais do que outras coisas. O flamenco não era apenas uma forma de fazer; era uma forma de celebrar, de se relacionar. Era devoção, mas também tinha que ver com um critério rigoroso, era algo verdadeiramente preciso.
O momento central de todos os encontros familiares estava sempre relacionado com o círculo. Todos em roda propiciavam o dançar, o cantar. Às vezes, alguém recitava ou cantava uma história. Não dava a sensação de que qualquer coisa servia; sentia-se que procuravam que acontecesse algo extraordinário. E, por vezes, acontecia. Uma ligação com Deus.
Quando fui viver para outra cidade para estudar numa escola de artes performativas, percebi que tudo aquilo que tinha aprendido durante a minha infância e adolescência me tinha proporcionado um conhecimento concreto sobre algo tremendamente abstrato. Não sabia colocá-lo em palavras, mas servia-me para a cena. Dentro de mim existia uma série de convicções íntimas, para além do âmbito académico, que nada tinham que ver com o literal, mas que respondiam a uma outra natureza.
Esta sensação no estômago, este calor no peito, esta forma de conhecimento, é a base da minha prática cénica e, neste trabalho, coloquei-a no centro. Esta é a razão de ser de El discurso.
Este saber sem saber faz parte dos povos. O relato da história é parcial, excludente, mas existe uma parte da história que tem que ver com a memória alojada no corpo, que não pode ser mutilada. Há uma forma específica de soar, de se mover, de sentir, que nos faz reconhecer como parte de algo, ainda que não saibamos exatamente do quê.
Estas formas de conhecimento, ligadas ao pensamento através do corpo, da voz, da imagem, da fé ou da intuição, foram historicamente menos valorizadas, sobretudo nos contextos académicos ou intelectuais.
A escritora e ativista feminista andaluza Mar Gallego conta que, no bilhete de identidade da sua avó, no campo das instruções, constava um “Não sabe”. Era assim que o Estado, nos anos quarenta, estigmatizava as mulheres que não sabiam ler nem escrever, ignorando tudo aquilo que elas sabiam fazer: cuidar, criar, cozinhar, improvisar, trabalhar a terra, sustentar a vida. Elas sabiam tudo o que era importante, mas, para o sistema, isso não contava, explica Mar. O saber das mulheres, às quais tinha sido negada a educação académica, não era reconhecido.
No meu caso, tenho observado que ser andaluza determinou, por vezes, o olhar sobre o meu trabalho. Às mulheres andaluzas é-nos atribuído à partida “arte” (aquilo que corresponde a este saber popular de que falo, ligado à memória), dizem-me que “vem no sangue” e, dessa forma, retiram valor ao mérito do meu percurso. Interessa o invisível, o intuitivo, o orgânico enquanto conceito ou prática em cena, mas esse valor não é transferido da mesma forma para a artista que o desenvolve. O mesmo acontecia com as figuras folclóricas: nunca lhes era atribuído um valor enquanto criadoras, enquanto produtoras de discurso. Apenas enquanto intérpretes.
É que, para o sistema, existem diferentes tipos de saberes: uns são estandarte, ouro, veludo, discurso, letras e pedestal. Outros são periferia, acaso, fonte, potência e caverna.
Quis criar tensão na relação entre estes dois mundos ao intitular El discurso esta experimentação pessoal sobre as minhas convicções cénicas mais íntimas.
Direção, Dramaturgia e Interpretação Rosa Romero
Espaço sonoro ao vivo Gustavo Giménez
Iluminação Miguel Ruz
Som Javi Mora / Cover: Jaime Tuñón
Vestuário Gloria Trenado
Acompanhamento e "olhar exterior" Silvia Balvín e María Cabeza de Vaca
Espaço Cénico La ejecutora
Produção El Mandaito
Distribuição Luisa Hedo
Coprodução Festival TNT (Terrasa)
M/66; 3h33