Qui 30 Jul 22h30
VEM - Videoarte em Movimento
Stein Henningsen • Luis Úrculo • Ilaria Di Carlo • Eugenio Ampudia • Guy Ben-Ner • Yuan-Goang Ming • Raida Adon • William Kentridge
Espaço Público - Montemor-o-Velho
Qui 30 Jul 22h30
Espaço Público - Montemor-o-Velho
O VEM – Videoarte Em Movimento é uma experiência itinerante de fruição da criação visual em ambientes de transição e passagem. Durante o verão, uma carrinha viaja entre Espanha e Portugal a exibir um programa composto por obras de videoartistas internacionais.
Trata-se de uma curadoria de perspetiva histórica e com classificação livre – para que a sua assistência a céu aberto, numa noite de verão, seja acessível e do interesse de todos os públicos. As projeções são realizadas em ambientes de pequena a média escala, retirando as obras do ambiente expositivo tradicional para levá-las a espaços abertos de projeção pública.
“Começa com imagens que me interessam ou que me provocam”
William Kentridge
No VEM 2026, a experiência visual apresenta-se a partir de uma carrinha que percorre o caminho entre Espanha e Portugal, transformando o deslocamento num território onde o íntimo, o político, o poético e o ambiental se encontram e se tensionam. A seleção reúne obras que falam da percepção e da memória, das tensões da vida cotidiana, da fragilidade das estruturas sociais e da relação do ser humano com o seu entorno, desde o espaço doméstico e urbano até à paisagem natural, industrial e simbólica.
Na peça My World de Stein Henningsen, o corpo enfrenta a vastidão de Svalbard, golpeando um iceberg que se desloca sem fim; uma ação mínima e insistente que se transforma numa metáfora de resistência diante de forças incontroláveis. Por sua vez, Luis Úrculo – Ensayo Sobre la Ruina aproxima-se da arquitetura, do vestígio e da instabilidade das formas construídas, propondo uma leitura poética da ruína como matéria física, mental e temporal. Na obra Polyphem de Ilaria Di Carlo, a paisagem surge como território ferido: a obra reinterpreta o mito de Polifemo no contexto do antropoceno, filmando um lago de resíduos de bauxite na Alemanha. O filme propõe uma meditação visual sobre a violência ambiental e a presença do impacto humano na paisagem. Em outro registo, Eugenio Ampudia com Concierto para el Bioceno, desloca a atenção para a escuta e para a interdependência entre espécies, ambientes e formas de vida, imaginando as plantas como uma possível nova civilização. De outro modo, Guy Ben-Ner transporta em Stealing Beauty a intimidade familiar para o interior de espaços de consumo, revelando como as convenções sociais, econômicas e afetivas moldam a nossa experiência cotidiana. Nesse mesmo cotidiano inscreve-se também o conflito em Yuan-Goang Ming com o vídeo Everyday War, onde a ameaça real da violência se inscreve no cotidiano das nossas próprias vidas e casas. Em Woman Without a Home (trailer) da Raida Adon a identidade, deslocamento e estruturas de poder, confronta-nos com a experiência de viver entre mundos, onde pertencer se torna um desafio constante. E para finalizar uma reflexão sobre história, memória e o mundo construído aparece nas obras de William Kentridge, pertencentes à série Soho Eckstein, onde o artista articula a memória histórica da África do Sul através do desenho animado, da transformação da imagem e da persistência do traço.
A mostra, com as peças de William Kentridge e Luis Úrculo apresentadas graças ao empréstimo da Colecção Teresa Sapey, entende-se, assim, como uma viagem entre o pessoal e o coletivo, a ação e a contemplação, o corpo e a história. Cada obra dialoga com a seguinte, articulando um percurso em que o vídeo se revela capaz de conter tensão, reflexão e poética, oferecendo ao espectador a oportunidade de confrontar os limites da sua percepção e a urgência de repensar o nosso mundo.
António da Câmara, Irit Batsry e Mario Gutiérrez Cru
VEM 2026
Stein Henningsen, My World (NOR, 2025, 3:14)
O vídeo mostra uma paisagem marítima no coração da natureza gelada de Svalbard. Bandos de aves sobrevoam em voo rasante um horizonte cinzento-azulado, como hieróglifos fugazes que atravessam o ecrã. Pela direita, surge um homem de fato, transportado por um bloco de gelo, que golpeia furiosamente a superfície com um malho, lançando neve a cada pancada. Quanto tempo passará até que o gelo ceda e o homem desapareça nas ondas? No entanto, o bloco continua à deriva, deslizando para fora do enquadramento pela esquerda, apenas para que a figura com o martelo volte a aparecer pela direita.
Guy Ben-Ner, Stealing Beauty (IL, 2007/2008, 17:40)
Filmado em lojas IKEA, Stealing Beauty transporta a vida familiar para o interior de um espaço comercial. Guy Ben-Ner transforma os cenários domésticos pré-fabricados em palco de uma ficção crítica sobre consumo, propriedade, educação e convenções sociais.
William Kentridge Felix in Exile (ZA, 1994, 8:46)
Iniciada em 1989, Drawings for Projection afirmou William Kentridge através de animações em carvão ligadas ao contexto do fim do apartheid, embora não concebidas como crónica histórica. Situada em Joanesburgo, a série contrapõe o industrial Soho Eckstein ao poeta Felix Teitlebaum, figuras opostas que gradualmente se aproximam até refletirem o próprio artista. Mais do que narrativa política, trata-se de uma exploração subjetiva da identidade, da memória e da contradição.
Yuan Goang-Ming Everyday War (TW, 2024/2025, 2:43)
Em Everyday War, Yuan Goang-Ming introduz a ameaça da violência no espaço da vida quotidiana. A obra constrói uma atmosfera suspensa, onde a casa e os gestos comuns deixam de ser lugares de segurança para se converterem em cenários atravessados pela instabilidade política e emocional.
Ilaria Di Carlo Polyphem (IT/DE, 2025/2026, 10:00)
Polyphem reinterpreta o mito de Polifemo a partir de uma paisagem marcada pela extração e pelo resíduo industrial. A obra aproxima mito, ecologia e antropoceno para propor uma leitura visual da ferida ambiental e da presença humana inscrita no território.
Eugenio Ampudia Concierto para el Bioceno / Concert for the Biocene (SP, 2020, 7:50)
Realizada no Gran Teatre del Liceu de Barcelona, a ação coloca as plantas no lugar do público, imaginando uma mudança simbólica de paradigma. A obra propõe uma escuta deslocada, onde a vida vegetal deixa de ser cenário para tornar-se interlocutora.
Luis Úrculo Ensayo Sobre la Ruina / Essay on Decline (SP, 2013, 3:56)
Em Ensayo Sobre la Ruina, Luis Úrculo trabalha a arquitetura como vestígio, hipótese e instabilidade. A ruína não aparece apenas como resto do passado, mas como matéria ativa a partir da qual imaginar outros tempos, outras formas e outros modos de habitar.
Raida Adon Woman without a Home - trailer (PS/IL, 2013, 3:27)
Em Woman without a Home, Raida Adon constrói uma meditação visual sobre identidade, deslocamento e pertença. A obra interroga o que significa ter ou não ter um lar quando a biografia pessoal se cruza com fronteiras, conflitos e estruturas de poder.