Sab 25 Jul 21h30
Francisco Camacho + Kotomi Nishiwaki
GREEN ROOM (título provisório)
Teatro da Cerca de São Bernardo - Coimbra
Sab 25 Jul 21h30
Teatro da Cerca de São Bernardo - Coimbra
O projeto baseia-se numa pesquisa sobre a relação indissolúvel entre o corpo e o espaço: não como entidades separadas que interagem, mas como uma única unidade em contínua transformação. O corpo não está disposto num espaço, mas com o espaço: camufla-se, dilui-se, entra em simbiose, mimetiza-se. Os limites entre o corpóreo e o contextual são permeáveis, inquebráveis, frágeis.
Nessa coexistência entre corpo e ambiente, introduzem-se instrumentos de medida: fitas métricas, balanças, termómetros, cronómetros e até mesmo dinheiro, entendido como unidade simbólica de valor e troca. Esses dispositivos não medem apenas, mas também alteram, impõem ritmos, tensões, pesos e tempo. A presença desses objetos suscita questões sobre o controlo, normatividade e a dependência do mensurável na vida quotidiana e no gesto artístico.
Green Room apoia-se na ética ecossistémica proposta por Miguel Benasayag e Florence Cany: uma forma de habitar o mundo que rejeita a centralidade do sujeito soberano, em favor de uma consciência interrelacional e situada. Não se trata de regressar a qualquer estado natural idealizado, mas de assumir a complexidade e a interdependência como condições essenciais da vida. A dança torna-se, assim, uma forma de pesquisa não verbal que incorpora esta ética: o movimento não é ação no espaço, mas resposta, escuta, afetação. A peça é também inspirada em Donna Haraway, que nos incita a "criar laços de parentesco" com o outro, a pensar numa perspetiva híbrida e de responsabilidade partilhada. O seu pensamento rompe as fronteiras entre o biológico, o tecnológico e o simbólico, e convida-nos a imaginar futuros compostos por relações em vez de indivíduos. Outra das nossas inspirações é o realismo agencial de Karen Barad, que propõe compreender o mundo como uma rede de intraações – relações onde os agentes não preexistem, mas se constituem mutuamente. Para Barad, matéria e significado emergem juntos, e isso ressoa profundamente com a prática coreográfica desta peça, que não parte de um corpo predefinido, mas o deixa emergir em relação aos dispositivos, objetos e espaços que o afetam. O corpo não representa, mas produz omundo, em tempo real. Achamos também interessante a afirmação de José Gil em “Caos e Ritmo”, onde salienta que a perceção do mundo não é possível sem a perceção simultânea do corpo. O projeto explora o corpo como interface de perceção, afetação e relação. Um corpo que não se mostra como um instrumento, mas como uma paisagem sensível, atravessada por tensões, medidas e ritmos que lhe são exteriores, mas que ele acaba por incorporar e transformar.
Coreografia e interpretação Francisco Camacho e Kotomi Nishiwaki
Co-criação e interpretação Francisco Rolo
Música e design de som Miquel Casaponsa
Desenho de luz e Direção Técnica Frank Laubenheimer
Direção de produção Lucinda Gomes
Produção executiva Sofia Freitas
Produção EIRA
M/12; 1:10