por Dori Nigro
© Carlota Lagido
á virou tradição no Citemor o almoço em Alfafar. Neste terceiro ano, Carlota abre novamente a porta da sua casa, que é também um espaço de acolhimento para artistas de diferentes áreas. E é assim, à mesa, que Carlota coreografa uma vida fincada no animismo, no campo, no meio de animais e da natureza.
E nesta mesa é capaz de juntar pessoas diferentes nas suas múltiplas interseccionalidades, como o faz na sua prática artística. A verdade é que não há fronteiras entre vida e arte nos fazeres e viveres de Carlota que elegeu Alfafar como criatório vivo para um exercício de liberdade.
Alfafar é uma pequena aldeia portuguesa situada no concelho de Penela, distrito de Coimbra, no centro de Portugal. É neste entremeio que Carlota faz morada há cerca de seis anos, deslocando o pólo cultural dos fazeres artísticos em Portugal, mas também conectando artistas contemporâneos, nas suas mais diversas abordagens, com a comunidade local. Carlota distancia-se de uma utilização da comunidade como laboratório de exploração para captar financiamentos públicos, mas oportuniza que, através da arte, as pessoas possam redescobrir as suas próprias bagagens neste caminhar contínuo que é a vida. E, como Carlota diz, cada pessoa traz a sua própria bagagem, porque cada pessoa é a sua bagagem.
Neste lar vivem o seu filho e Patinho, companheiro de vida e de arte. Patinho faz parte da equipa técnica do Citemor, sendo responsável pelo trabalho cuidadoso e sensível da iluminação das peças, sempre em diálogo com os artistas.
Escutar Carlota é um ensinamento constante para mim. Não porque ela se coloque na posição de ensinar, mas antes porque se compreende o lugar da aprendizagem. E desta forma, ao aprender, ensina sem o saber. O aprendizado de Carlota acontece através da arte enquanto gesto permanente, pois há sempre algo para mover ainda mais aprendizagem. Enquanto houver curiosidade e perguntas haverá sempre espaço para aprender, e também ensinar.
Carlota aprende na e com a natureza, com os artistas e com a comunidade, mas também com as lutas de outrora, que nos ensinam constantemente que, parafraseando Angela Davis, a liberdade é uma luta constante. E, portanto, lutar pela liberdade da Palestina é lutar pela liberdade de um mundo que vive aprisionado nesta dicotomia entre opressor e oprimido.
Antes mesmo de se apresentar como artista, Carlota evoca a natureza, por compreender que há coisas que transcendem a nossa humanidade fugaz e, por vezes, adoecida. Ela ensina-nos a reaprender com os cavalos, as cabras, as tartarugas e os cães, porque não estamos sós no mundo e, por isso, há que honrar quem veio antes e quem permanecerá para o porvir. Será talvez por isso que a justiça é a grande bandeira da vida de Carlota. Há muitas bandeiras por levantar e há velhas bandeiras que precisam de ser resgatadas. A bandeira da Palestina, queimada pelo sol e rasgada pelo tempo, mantém-se de pé no Lugar do Meio, revelando que, apesar de tudo, é preciso manter a esperança. E, retomando o velho cliché, ela é a última a morrer. Por isso: Palestina livre, sempre.
É neste espaço que a arte surge como consequência de uma forma de estar no mundo, de um corpo inquieto perante o status quo. Carlota é este ser de luz que não aceita limites, a não ser aqueles que ela própria por sabedoria lhe dá. Sim, na vida é preciso haver limites, mas nunca pode haver limites para lutar por melhores condições de existência. Talvez por isso a sua prática artística nunca se separe da sua prática política. Criar é também cuidar, como quem cozinha um futuro melhor que se aquece no presente vivido.
É neste Lugar do Meio que Carlota luta por melhores condições para continuar a fazer aquilo que sempre fez. O seu palco pode ser uma mesa, uma floresta ou uma aldeia. Não importa o que há sobre a mesa, nem a sua materialidade, mas a possibilidade de fazer o encontro acontecer. E, para Carlota, não há tempo ruim, mesmo quando passa uma noite em claro.
O Lugar do Meio, sonho que Carlota e Patinho desenvolvem no interior do país, torna-se a continuação dessa ética de fazer as coisas acontecerem, mesmo diante dos tempos difíceis que nos rondam e que roubam a já pequena fatia destinada a quem faz arte. Mesmo perante a escassez de recursos, a lição que Carlota nos oferece é que a criação não depende dos grandes centros nem das grandes instituições para existir, mas o Estado precisa se responsabilizar em compreender a arte não apenas como parte da vida, mas também responsável pelo difusão e o crescimento social, cultural e econômica do país.
É preciso, portanto, transgredir essas fronteiras que ditam e capturam a arte. Fazer arte é também inventar nas periferias novas geografias para viver. Carlota e Patinho assim o fazem de maneira estritamente humana e comprometida: trazer para o meio aquilo que durante tanto tempo permaneceu nas margens.
Nesta conversa, que se abre para muitas outras que ainda virão, como os nossos almoços anuais anunciam, percebemos que não há respostas definitivas nem fechadas. Há, isso sim, a necessidade permanente de fazer as perguntas certas. Neste meio, Carlota abre caminhos entre a arte e a comunidade, uma comunidade que se junta para formar outras comunidades. Sim, porque a ideia de comunidade não é rígida nem fixa. A comunidade tem a sua própria voz. Não precisa que lhe sejam dadas outras vozes. E, sim, amplificadas as suas verdadeiras vozes.
É isso que o Lugar do Meio faz, sem precisar de o anunciar. Porque o fazer artístico não deve viver apenas do desejo constante de ocupar o centro, mas da capacidade de criar lugares onde outras pessoas também possam chegar, permanecer e, assim, transgredir o próprio centro para recriar outros. Abaixo segue a nossa conversa que é um desejo para muitas que virão, enquanto houver vida e liberdade:
Dori: Quem é a Carlota?
Carlota: (Risos.) Quem é a Carlota? Eu sou muita coisa. Antes de ser artista, sou esta pessoa muito ligada à natureza, aos animais, à justiça. Sou uma pessoa politizada, muito variada, muito instável e, ao mesmo tempo, muito estável. Sou bastante versátil nesse contexto. A justiça é uma coisa que me afeta muito, que está muito presente, diariamente, na minha vida. Depois, ser artista acaba por estar muito ligado a tudo isto que estou a dizer, porque são duas coisas indissociáveis.
Dori: O artista visual brasileiro Java Araújo fez a mostra Sereia é mulher e a outra metade é o que ela quer, substituindo a metade tradicional do peixe e da ideia romântica de sereia por "o que ela quer", como autoafirmação feminina. Qual é a outra parte da Carlota?
Carlota: É o que eu sou e o que eu queria ser. “Metade sereia” é aquilo que eu gostaria de ser, de ter sido, e não fui. Artisticamente falando, acho que aquilo que não fui e gostaria de ter sido estou agora a começar a ser. Com esta idade, sinto que, desde sempre, deveria ter investido mais nas artes visuais. Deveria ter sido esse o meu caminho principal, mas acabei por ir para a dança. É essa metade que me faltou. Mas, ao mesmo tempo, já não falta, porque agora estou a começar a entrar por aí. É essa a minha metade: estar ligada às artes visuais de uma forma consistente.
Dori: Como começou a dançar?
Carlota: A dança não foi uma influência direta, mas teve muito a ver com a minha mãe e com um certo universo que encontrei através dela, porque foi bailarina e estudou dança quando era criança. Ela tinha em casa um grande tutu. Tinha as suas sapatilhas de ponta guardadas. E eu brinquei muito com isso. Acho que foi aí, aos oito ou nove anos, que fiquei fascinada pela dança, por causa daquele tutu clássico e daquelas sapatilhas de ponta. Depois entrei, naturalmente, em Lisboa, para a mesma professora da minha mãe, a Margarida de Abreu, uma professora muito conhecida. Foi aí que comecei a estudar dança clássica.
Dori: Fazes parte também desta história da Nova Dança Portuguesa. Como vês hoje a dança feita cá?
Carlota: Para ver hoje também tenho de olhar para o que era antes. Acho que este movimento, esta coisa que surgiu nos anos 80, em Lisboa e nas grandes cidades de Portugal, aquilo a que chamamos Nova Dança Portuguesa, foi um movimento muito disruptivo. Veio romper certas normas. Veio romper com o corpo normativo, com a forma de criar e com a forma como nos mexíamos. Hoje estamos completamente diferentes. Naquela época havia muito pouca gente. Éramos muito poucos e havia muito pouca coisa. Havia os Encontros Acarte, que foram muito importantes em Lisboa porque trouxeram muitos artistas de fora. E não havia muito mais: havia a CNB, a Companhia de Dança de Lisboa e a Gulbenkian. Esse grupo veio romper com uma determinada estética e abrir outros caminhos. Hoje estamos noutro lugar. Estamos num lugar de uma imensidão de pessoas, de formas, de estéticas, de coisas normativas e não normativas, de coisas completamente loucas. O contexto hoje é muito variado, muito rico e muito incrível. Acho que a dança portuguesa é, neste momento, qualquer coisa de extraordinário. E ainda há aqueles que sobreviveram, como a Vera Mantero, que tem um trabalho que admiro muito. Está sempre à frente, está sempre a evoluir, sempre com uma frescura que vem desse tempo. Vê-se que ela vem desse caminho que foi aberto por ela e esse grupo de pessoas.
Dori: É importante falar dessas mulheres que estão sempre à frente. E o teu percurso também é estar à frente, tanto como artista como cuidadora e curadora desse espaço que, de certa forma, é uma descentralização das artes, rompe também com esses cânones da arte. Estamos a falar aqui do Lugar do Meio, numa zona muito específica de Portugal, que é fora desses pólos hegemônicos que ainda querem ditar o que é arte, o que é dança, não é?
Carlota: Sim, sim. Completamente. Isto foi sempre um certo sonho que eu persegui e que eu consegui, de alguma forma... conseguimos, eu e o Patinho. E este projeto é muito por aí, muito por dizer que eu não preciso de um teatro para existir. Eu não preciso de um palco para fazer coisas. E não preciso de estar em Lisboa. Claro que eu sou uma pessoa de Lisboa, evidentemente, e tenho o meu percurso, evidentemente, e isso, de alguma forma, ajuda a que tu consigas fazer algo mais consistente. Tenho a minha experiência, etc. Mas sinto muito este lugar. Para já, é um lugar de experimentação. É um lugar aberto à experimentação, sempre. Temos muitas formas de fazer as coisas aqui, desde as residências artísticas, que não têm grandes finalidades a não ser isso mesmo, a experimentação. Temos apresentações públicas já em forma de espetáculo, como concertos de música improvisada, ou eletrónica e outros eventos, que são sempre feitos nos lugares naturais. Nós não temos um palco. Temos lugares exteriores e interiores, mas não temos nenhum palco. É a própria natureza. Já temos feito aqui algumas coisas muito fixes.
Dori: E, além disso tudo, és artista. Marcou-me muito ver o teu espetáculo Mina-Mesa, no qual o palco era a própria mesa. E, de repente, eram servidas ali todas essas formas de ser mulher, essas diferentes sereias. Como foi o processo criativo? E como foi trabalhar com essas diferentes mulheres?
Carlota: Foi muito interessante. Foi muito rico, porque foi uma aprendizagem para todas, todes, porque entretanto há pessoas não binárias neste grupo. Foi uma aprendizagem muito, muito forte, de partilha de experiências de vida, de muita interseccionalidade, de perceberes onde é que tu te inseres, quais são os teus lugares de fala e quais não são. De que é que tu vais falar? O que é que tu podes falar? Quem é que tem o direito de falar sobre o quê? Será que sou eu que vou falar de colonialidade ou racismo quando há pessoas racializadas no projeto? Colonialidade até posso, como ex-colona, não é? Foi mesmo um lugar de muita troca. E foi um processo muito giro porque começa por ser sobre a minha direção, mas, de repente, já não é. Já não sou eu que decido. Já é um grupo. A Shahd dizia: "Isto já não é uma peça. Isto é um coletivo." Por isso, pronto, já não havia hierarquia. Quando fizemos aqui, no Linha de Fuga, naquela mesa gigante, eu praticamente não estive presente nas decisões. Estive preocupada com a comida, com a produção. E elas é que decidiram tudo. "O que é que vamos fazer? O que é que vamos dizer? O que é que vamos ler?" Foi muito fixe. No fim só disse: "Ah, se calhar, Jô, vais subir em cima da mesa e fazer aquela parte." (Risos.)
Dori: Este momento foi muito impactante.
Carlota: Isso foi super bom. Deixar de ser a pessoa que dirige e entrar nesse registo é raro.
Dori: Sim... E é um trabalho também de muita generosidade. São poucas as pessoas que se abrem para esse processo.
Carlota, estamos aqui no meio do Citemor, este festival que tenta ser também um espaço de experimentação. Fala da tua relação com este festival, que eu sei que é também tão antiga quanto o próprio.
Carlota: Sempre adorei…. Sempre achei incrível aquele lugar, para além de um festival, principalmente quando era todo concentrado ali, em Montemor. Eu tive duas experiências no Citemor com o Francisco Camacho. Estivemos lá em residência. Apresentámos duas peças, uma delas criada lá em residência, e depois uma peça minha, anos mais tarde. Sempre achei que este festival tinha aquela coisa muito específica de festival, onde as pessoas estão juntas, comem juntas, o público está junto. Há festa. Há comida. A festa está sempre presente, de alguma forma. A programação, o facto de terem uma programação muito diluída por espaços que também não são convencionais... Havia antes a Sala B, não sei se ainda há. Havia o celeiro, não sei onde… Todo este ambiente do festival sempre foi uma coisa muito boa para mim. No outro dia dizia ao Patinho:
— Patinho, que bom. Para mim o Citemor é uma espécie de férias. Estou de férias.
Gosto muito de estar lá como artista. Já não estou há muito tempo. Gostava de voltar um dia destes. Hoje tenho pena que o festival esteja também espalhado por Coimbra. Tenho pena. Mas percebo porquê. Sei porquê. É uma necessidade.
Dori: A Neiva faz essa crítica. Segundo ela, o festival, ao sair daqui, perde este lado mais comunitário. De repente vai para outras cidades, que já têm os seus festivais. E as pessoas ficam mais em hotéis.
Carlota: Sim... Já perde ali aquela essência. Há gente que vem de todo o lado para ver o festival. De Lisboa, da Figueira, de Coimbra, do Porto… Acontecia muito isso. Hoje ainda acontece, não é?
Dori: Sim. E da própria Península Ibérica. Vêm muitas pessoas de Espanha.
Carlota: E as pessoas vão para o hotel. Antes, as casas dos residentes eram para os artistas. Eram todas partilhadas e alugadas ali. Havia toda essa dinâmica, também económica, que não sei se continua. Os cafés... aquele café da praça... estávamos sempre lá. Ainda é muito giro.
Dori: O teu trabalho é político porque também é a tua vida, e tu posicionas-te muito nessa política artística e cultural. Estava a conversar com o Xavier acerca dos "Ds" que ficaram por cumprir, de uma revolução também por cumprir. Há aqui um "D" que eu vejo muito a acontecer tanto no Citemor como no que tu fazes aqui, no Lugar do Meio, que é a descentralização. Ou seja, tirar também esse eixo, deslocar as coisas, mas também lutar por financiamento justo. Eu venho do Brasil e, durante muito tempo, o eixo ficou entre Rio e São Paulo. Quase toda a fatia dos financiamentos ficava aí. E eu vejo que estás também nesta resistência de conseguir fazer acontecer. Porque é bonito fazer arte, é bonito dançar, mas também precisamos de ser bem pagos, de ter dinheiro para fomentar para que as coisas bonitas aconteçam.
Carlota: Claro. E essa é a parte mais complicada, não é? Por exemplo, este ano não tivemos apoio, porque havia muita dependência da DGArtes. Já nem sei bem porquê. O projeto de gestão não estava bom, assumo. Mas não somos só nós. Aqui, em Penela, por acaso, somos nós e a companhia da Chanca. São duas estruturas que têm trabalhos completamente diferentes. A Chanca já cá está há muitos anos. Também eram de Lisboa e têm um trabalho muito mais desenvolvido e diferente. Nós só chegámos há seis anos aqui. Fazemos coisas muito experimentais, muita coisa contemporânea que aparentemente parece complicada de ser entendida. Pode parecer difícil, mas acaba por não ser. Porque a experiência que temos tido aqui é que, por exemplo, trazemos música improvisada ou música eletrónica e, ao princípio, tínhamos algum medo. Pensávamos:
— Ai, a comunidade vai odiar isto.
E não é que as pessoas gostam? As pessoas, se tiverem acesso às coisas, acabam por gostar. Porque toda a gente tem a sua experiência. Não interessa se são doutoradas ou não. Toda a gente tem a sua capacidade sensorial. Todas as pessoas têm capacidade para entender, sentir e percecionar. É importante que estruturas como a nossa sejam apoiadas, porque não há outra forma de fazermos este trabalho. Claro que acabamos por fazê-lo, mas eu não lhes vou pagar uma bolsa de criação porque não tenho. Não vou pagar as viagens. Não vou conseguir contribuir porque não tenho. Só o Estado pode fazer isso. E, ao fazê-lo, está a contribuir para essa descentralização, para que a fruição artística seja realmente espalhada.
Dori: É bonito este trabalho que fazes convidando a comunidade e respeitando a bagagem que cada pessoa traz consigo, porque são diferentes.
Carlota: Eu fiz um único trabalho em vídeo com as pessoas daqui da aldeia e de outras aldeias. Era um projeto que partia de mim, da minha ancestralidade, que não tem nada a ver com este lugar, mas que encontra aqui uma relação qualquer, como se tivesse sido aqui. Então quis transpor isso para as pessoas daqui e fui procurar a ancestralidade delas. Fui entrevistar e filmar todas as pessoas que se mostraram interessadas. Todas me abriram a porta. Mostraram-me tudo. Contaram-me histórias incríveis da aldeia, das tradições, de como era antes do 25 de Abril e depois do 25 de Abril, porque essa era uma das perguntas que eu fazia. Havia toda uma relação. Mostraram tudo. Abriram tudo. Foi incrível. Foi a única vez que a aldeia veio praticamente toda ver um filme. Depois ficaram a dizer:
— Eu também quero. Eu também quero ser entrevistado.
Também quiseram contar as suas histórias. Era uma coisa que começava por mim, pelas minhas ancestralidades. E acabou por ser sobre as pessoas daqui.
Dori: Gosto muito de pensar nesta ideia de amplificar vozes. Geralmente vamos às comunidades com esta ideia salvadora de "dar voz". Eu gosto muito dessa metodologia de partilha, em que contas a tua história e ouves outras. Assim, as histórias são amplificadas. Cada pessoa tem a sua própria voz.
Carlota: Tem completamente. Eu estou sempre a dizer:
— Eu não venho ensinar ninguém a dançar.
Elas já sabem dançar. Dançam à sua maneira. Não há nada que eu queira fazer aqui, a não ser aquilo que eu faço e aquilo que as pessoas que convido fazem. Mostrar. Queres fazer? Queres experimentar? Queres vir a um workshop? Há coisas em que, se calhar, eu poderia insistir mais. Questões relacionadas com a ecologia e com a preservação de uma série de coisas. Uma certa preservação da natureza que aqui, no campo, cada vez mais desaparece. Porque as pessoas querem tudo rápido. Não querem fazer permacultura. Preferem pôr químicos porque é mais rápido, é mais prático. Pronto. Se calhar aí era capaz de insistir um bocado mais. Tipo:
— Bora fazer um workshop.
Convidar alguém para vir fazer um workshop sobre permacultura, agricultura sem químicos ou agricultura biológica. Ou vamos preservar os muros de pedra seca que estão aqui há centenas de anos.
Dori: És uma pessoa que admiro muito, porque levantas muitas bandeiras. Não bandeiras partidárias ou que estão na moda, mas bandeiras que fazem parte da tua história de luta política. Que bandeiras levantas hoje? Ou que vozes gostarias de amplificar para o mundo escutar?
Carlota: Há sempre a voz da Palestina. Não só a voz da Palestina. A Palestina é quase um símbolo de todas estas vozes que têm de se levantar e que têm muito a ver com esta vaga mundial fascista e repressora, com este retrocesso gigante a que estamos a assistir. Esta intolerância total... Estas pessoas que saem debaixo das pedras e, de repente, começam a ficar mais racistas, mais fascistas, com menos empatia. Isto choca-me ao ponto de... E eu sei que isto é superprivilegiado, o que vou dizer:
— Ah, eu agora não quero sofrer, por isso vou deixar de ver notícias e vou deixar de ver as redes sociais.
Mas eu tive de fazer isso. Eu sei que isto é super egoísta, mas tive. Comecei a ter ataques de pânico durante estes dois, três anos da Palestina, desta coisa a que estamos a assistir impotentes, sem conseguirmos fazer absolutamente nada. Depois a raiva é tanta que tu só queres usar a mesma moeda. Queres usar a força. Tornas-te bélica. E acho que é muito esta bandeira contra tudo isto. É uma bandeira que nem sei de que cor é. É uma bandeira de múltiplas cores, com múltiplos significados, para dizer que não queremos isto. Não queremos este racismo, esta maldade. Parece que as pessoas tomaram um ácido de maldade. Não é possível pessoas ameaçarem de morte outras pessoas no Facebook, como eu já vi, só porque têm uma opinião diferente. Há um desprezo total por tudo aquilo que aprendemos desde o 25 de Abril, desde a Segunda Guerra Mundial… Ou até antes. Todas as revoluções que aconteceram… Como é que é possível chegarmos a este ponto? O que é que aconteceu? O Trump, o Bolsonaro, este governo que temos… Como é que se luta contra isto?
Dori: E não há como, Carlota, deixar de ver e de sentir, não é? Por mais que tentemos não ver e não sentir, vemos e sentimos. Eu não acho que seja um privilégio dar esse tempo de dizer "não quero ver", de me distanciar. Não vejo isso como privilégio. A Audre Lorde fala sobre a importância do autocuidado. E isso não deve ser negligenciado. O mundo está adoecido e nós vamos adoecendo juntamente com ele.
Carlota: Quando eu falo em privilégio é porque eles não podem deixar de sofrer em Gaza. Eles não podem dizer:
— Ah, agora não quero sofrer.
É um bocado nesse sentido. E nós estamos aqui, nas nossas televisões, nos nossos telemóveis, e podemos dizer:
— Agora não quero ver.
Não faz mal.
Dori: Enquanto há muitas pessoas que não têm essa opção.
Carlota: Se eu não o fizesse, chorava todos os dias. Muita gente diz que, quando a Palestina for livre, muitos outros lugares vão ser livres. Não sei se será bem assim. Porque há muitos lugares… A África… Muitos lugares.
Dori: Que vivem uma pseudo-liberdade.
Carlota: Sim… E tens agora os Estados Unidos, que são também um grande exemplo de uma democracia que nunca foi...
Dori: Então dancemos pela liberdade e pela empatia.
Carlota: Sim. É isso mesmo. Bandeira da liberdade e da empatia.
Dori: Levanto contigo, então, essas bandeiras… Muito obrigado, Carlota.
Carlota: De nada. Obrigada eu. Agora até fiquei nervosa. (Risos.)